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Liberdade



Sendo possuída por esse novo sentimento, lembro-me da beira do cais da Bahia onde Jorge Amado tomando a mão da negra, convida-a para sentar, olhar as estrelas e ouvir a história do poeta que foi amado e amou muitas mulheres:

“ SENTA-TE AQUI AO MEU LADO, AMIGA, e eu te contarei uma história. Faz tempo que não te conto uma história na beira deste cais. A noite está cheia de estrelas, são homens valentes que morreram. Senta-te aqui, dá-me a tua mão, vou te contar a história de um homem valente. Vês aquela estrela lá longe, mais além do navio fundeado, mais além do forte velho, da sombra das ilhas? Deve ser ele iluminando o céu da Bahia. Não sei se será bem uma história o que te vou contar. Talvez seja uma louvação, talvez seja um abc. Um abc, negra, que tem um nome lindo: Liberdade”. E embala numa canção sentida o ABC do poeta.

Levanto-me, pois tenho encontro com os marinheiros que esperam o Profeta na cidade de Orphalese. Ansiosos, caminhamos desnudos sem vestimenta e epiderme. A voz não leva consigo a língua e os lábios que lhe deram asas. E pergunta: “Será, acaso, o dia da separação o dia do encontro?” E depois de longas caminhadas e ensinamentos um tribuno diz: “Mestre, fala-nos de Liberdade!” E o profeta responde: “Às portas da cidade e junto à lareira já vos vi prostrados a venerarem a vossa própria liberdade. Tal como os escravos se curvam perante um tirano e o louvam enquanto ele os açoita. E o meu coração sangrou por dentro; pois só se pode ser livre quando o desejo de encontrar a liberdade se tornar um jugo para vós, e quando cessardes de falar de liberdade como de uma meta e de um fim. Sereis verdadeiramente livres não quando os vossos dias não tiverem uma preocupação nem as vossas noites necessidades ou mágoas.Mas quando estas coisas rodearem a vossa vida e vós vos ergais acima delas, despidos e libertos.” 

Deixo o oriente. Volto enriquecida. Mas ainda quero falar sobre tema. Sinto dúvidas no momento de opção. É quase impossível conversar com todos os meus livres amigos. Encontro Cecília e Djavan. Ela que é exímia professora na arte de ver, sabendo como ninguém o segredo de nos fazer enxergar, sentir, transformar e amar as coisas e as pessoas através da ótica de poeta, me diz: “Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, a ela se tem até morrido com alegria e felicidade. Somos, pois criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre – como diria o famoso conselheiro… – é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo que partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho… Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autônomo e de teleguiado – é proclamar o triunfo luminoso do espírito.” 
Djavan olha para mim e canta: 

“Um amor ou um gen da mesma cor cintila em mim
O chão a tremer conduz a luz
Meu amor e quer me matar de amor
Que seja assim por obedecer viver por mim
E voar onde o longe é pouco
Cruzar os muros do além
E assim pousar na Terra
E amar muito mais que poucos
Pousar a vida em tuas mãos
E assim cruzar a Terra
Liberdade vai na poesia
Trás meu destino
Que eu vou sair e voar!”

Penso, e eles me entendem, que a marca da ignorância é a profundidade da crença do ser humano na vaidade e no egoísmo. O que a lagarta chama de fim de mundo eu chamo de borboleta. Despeço-me deles. Ainda preciso ver a Clarice que diz: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Encontro Thiago que me oferece seu disco Mormaço na Floresta. Autografa, dizendo: “ Sabemos que é a água que dá à planta o milagre da flor”. Saio feliz, lembrando que tudo é permitido: “Só uma coisa é proibida: amar sem amor”! Talvez não seja só e sem ninho que a águia voará rumo ao sol.

Publicado no Jornal de Arcoverde - Vidráguas
Livros mencionados: O ABC de Castro Alves de JorgeAmado
O Profeta de Kalil Gibran
Cecília, Djavan, Thiago de Melo, Clarice...(Isso é usado em minhas aulas de Literatura Brasileira para mostrar as diferenças de gêneros literários e de pensamentos de acordo com a Escola Literária a que cada um pertenceu...). Se bem que Clarice não nasceu aqui mas pertence à nossa literatura...e nem Gibran nasceu...

[Por Antonia Lima]
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Teimosamente Alada


É preciso data?
Lugar?
É preciso estar?

Claro que ninguém segura meus mares e espaços!
Vai dar bolero, cordel ou o allons enfants de la Patrie...
Não, não e não!
Depressa, vou abrir a janela porque a borboleta precisa de ar
E as ramas da minha mangueira lhe acenam.
Voluptuosa, busca o tapete brilhante
Do azul noite!

Emocionada e travessa
Assisto ao balé único e insuperável dessa libélula mulher
Sempre e teimosamente alada!
Porque amor, porque espírito, porque vôo!

No grande silêncio destes longes
Jamais nos entenderão
Que em nossa cabeça
‘a flor é vermelha, a maçã é cheirosa’
A pele arde, o pássaro azul canta.
Morre-se mil vezes
Sem precisar de que tudo exista
E que tendo o direito de sonhar
Vivamos o sonho!


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O sonho da Menina



A moça do Sonho e o sonho da Menina 

[por Antonia Lima]


Ao dormir, adentrei no sonho da moça que, naquela oportunidade, desejava conhecer o sonho de uma menina que gostava de escrever. Pisamos num chão vermelho, sua terra natal, antes Vila Bela, hoje uma bela duma Serra Talhada por Deus às margens do Rio Pajeú, o mesmo rio que o Luiz Gonzaga canta em Riacho do Navio. E a encontramos. Filha de comerciantes de tecidos, esta menina passou sua infância numa cidadezinha chamada Betânia, cujo padroeiro era Santo Antonio, o mesmo do dia 13 de junho, data em que ela nasceu! Por isso, o nome: Antonia! 

Cedo, foi alfabetizada; e decidiu que seria ou professora ou advogada. Mas as dificuldades eram muitas, pois ali só se estudava até a 4ª série e havia um único Grupo Escolar. As luzes, ainda, não eram acesas através da energia elétrica. Não havia sinal de TV. Nem linha telefônica. À noite, depois que desligavam o motor/gerador, era à luz de velas, candeeiro ou chaminé que esta menina lia. As novelas, ela as ouvia pelo rádio; a revista proibida na sua tenra idade era a Capricho (porque tinha fotonovela e beijos). Sempre inquieta e ansiosa, era uma criança curiosa em termos de estudos. Queria sempre mais do que a escola oferecia. Não lembra quando começou a escrever. Deduzimos que logo que aprendeu a ler, já fazia bilhetes/cartas para a sua mãe, seus tios; escrevia em seu pequeno diário e carregava na dramaticidade..Enquanto sua mãe recitava “A Lira dos Oito Anos” de Casimiro de Abreu, ela já havia decorado “O Bicho” de Manuel Bandeira. 

Embalada no sonho da moça, lembrou que aos dez anos de idade foi morar em Arcoverde pois precisava de uma cidade maior para continuar os estudos. E a família mais uma vez se retira para buscar “um futuro” para a filha primeira. Ação comum entre os nordestinos, essa de se “arretirar” para um outro lugar que eles pensam ser melhor! A cidade escolhida foi a chamada porta do Sertão, Arcoverde, assim denominada porque terra do primeiro Cardeal da América Latina. Lá, essa menina cresceu. Perguntamos o que de curioso ela tinha para citar desta época.

“Uma tarde, meu pai foi chamado à Biblioteca do SESC da cidade para autorizar o empréstimo de “Crime e Castigo” de Dostoiésvisk e “Mme Bovary” de Flaubert. À noite, não o deixei dormir com medo da velha assassinada. Também fiquei enjoada com a cena de envenenamento da Emma Bovary.” 

Tinha 15 anos de idade quando ganhou a coleção de Os Melhores da Literatura Brasileira e os 50 melhores da Literatura Universal, lembra ela. Enquanto suas amigas liam livrinhos de bolso e colecionavam a Revista Intervalo, da Jovem Guarda, ela devorava livros! Achou pouco, e começou lendo Os Pensadores... Pensava que seria advogada mas não havia lá, ainda, Faculdade de Direito. Começou a lecionar muito cedo, ainda estudante do Curso de Magistério. E outra disciplina não poderia ser: Língua Portuguesa! Fez Letras/ Licenciatura Plena, em Caruaru/ PE. “Faria de novo, diz ela, de tão encantador que este curso é.” 

E sua primeira turma de alunos foi formada por 40 comerciantes, colegas do seu pai que queriam fazer o Curso Supletivo no mesmo SESC, onde um dia foi repreendida por ler “cedo demais” o que não devia. Ela, com 17 anos, e eles (seus alunos) já bem mais amadurecidos. Enfrentou, perdeu o medo de ensinar a adultos! Aliás, nunca teve a oportunidade de ensinar às crianças porque ao ser contratada pelo o Estado, posteriormente, já começou como Professora de adolescentes do segundo grau. Casou e continuou a trabalhar. Ainda em Arcoverde, paralelo às atividades profissionais, participou de peças teatrais como atriz, diretora de peças e fazendo adaptações de romances para o teatro. Conta ela: 

“ Fui a Mulher do Padeiro em “ O Auto da Compadecida” (de Ariano Suassuna); a Nancy de “ Deus lhe Pague” (de Joracy Camargo); adaptei o livro O ABC de Castro Alves (de Jorge Amado) em peça de teatro e encenei com meus alunos. Transformava minhas aulas de Literatura em espetáculos; exagerava em contar biografias dos Escritores de todas as Escolas Literárias. E narrava as obras, analisava os personagens com um propósito de promover a leitura e a escrita”. E continua: “ao colocar meus filhos para dormirem, contava estas biografias como dramas. Ensaiava minhas aulas nessas horas. Eles aprenderam muito cedo as vidas (e mortes) dos escritores. E os resumos das obras, também. Ao mesmo tempo, enquanto ouvíamos uma sinfonia de Beethoven, eu contava a triste história dele, de sua surdez, para causar mais drama...e eles prestarem a atenção; contava toda a vida do músico. Conversava sobre várias vidas e obras dos escritores românticos da fase pessimista. Sobre a tuberculose que era o mal do século, sobre a luta pelos negros escravos de Castro Alves e de Tobias Barreto. Mas não ficava só por aí...quando falava sobre o Machado para dá ênfase até onde ele chegou (Fundou e presidiu a Academia Brasileira de Letras), eu falava que ele era mulato, muito pobre, epiléptico...e trabalhava numa tipografia..e, assim, eu já entrava no Realismo Brasileiro, outra Escola Literária; carregava minha prosa com tintas fortes...Assim discorria sobre a vida do Manuel Bandeira, do Graciliano, do João Cabral, entre outros. Meus filhos eram meus primeiros ouvintes, coitados! (Ou não!...) Nesta época, eu já lecionava em duas Faculdades. Claro que (em casa), eu mesclava com Literatura Infantil...e eles ouviam e cantavam os poemas de Vinícius daquele projeto “A Arca de Noé”...Liam infantis como “Ou Isto ou Aquilo” de Cecília, “Chapeuzinho Amarelo”, do Chico, etc,”. 

E A moça do Sonho pergunta como dava conta da escrita. E ela continua: “ Quando minha filha mais velha nasceu, depois de uma gravidez complicada, escrevi uma crônica ‘Pequenina Flor de Maio!’ Fui chamada para ler numa rádio local...foi uma comoção! Aí, não mais parei. Comecei a escrever para o Jornal da Cidade e ganhei um espaço na programação da Rádio local para redigir e apresentar ‘Palavras em Canto’! Paralela às minhas atividades nas escolas e, posteriormente, na Delegacia Regional de Ensino de Arcoverde, fui convidada para a Equipe Central da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco! Vim para Recife. Neste percorrer, fiquei à disposição da Secretaria do Trabalho e Ação Social e conheci melhor este mundo Trabalho x Emprego x Renda e as suas Relações Sociais. Também, durante quatro anos, coordenei projetos na Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania. É inesquecível. Educação, Trabalho e Justiça! Só que, sem a primeira, a Educação, não haverá nem trabalho nem justiça. Nada seremos!” 

E o sonho de ser advogada? – perguntamos. E ela completou: “Mais adulta e mais amadurecida, já com filhos mais crescidos, realizei meu antigo sonho ao cursar Direito. Mas nunca deixei de ensinar, pois esse exercício me faz aprender e apreender. Acho que meus cursos se completam e me completam. O que é peticionar, reclamar, apelar, agravar, embargar, recorrer? São verbos que indicam a ação de escrever. Não sei o que seria de mim sem meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus apontamentos. Mas sei que não viveria sem escrever e sem a palavra escrita! Claro que aqui falo de uma paixão! Família, ah, família é sagrado!

Manejar a palavra é manejar meu pão de cada dia. Escrever é um ato e um fato. É encantamento, é alimento, é prece, é vício, é remédio, é cura! Eu me afogo e desafogo, inspiro e expiro a arte maior com todos os seus símbolos, significantes e significados! Li outro dia que “sem advogado não há Justiça”. Eu diria que “sem professor não há advogado”. E acrescentaria: “sem a leitura e a escrita não há direito nem cidadania”!

E a moça do Sonho ao ouvir a realização do sonho da Menina foi em busca de outros sonhos. 

E eu, que tinha adentrado no sonho de A moça do Sonho, acordei.

Escrever este sonho me era uma urgência!

Imagem daqui


Antonia Lima é pernambucana da cidade do sertão do Pajeú, Serra Talhada. Menina, ainda, já demonstrava o amor pelas artes, especialmente, pela Literatura. Fez Magistério no Colégio Imaculada Conceição de Arcoverde-PE. Em 1975 concluiu o Curso de Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru-PE, onde também fez Pedagogia. Pós graduada em Língua Portuguesa pela UFPE e em Língua Portuguesa/Redação pela PUC/MG. Bacharel em Direito pela Faculdade Damas de Instrução Cristã. Professora de Língua Portuguesa, Linguística e Literatura. Produtora de textos e profissional liberal.Revisora de textos/ Redações de Pós graduação e de Mestrado.

A Maria Bonita de Lampião

Arte de Alfredo Palmero
A Maria Bonita de Lampião

Há dias que a gente quer ser pessoas, coisas, lugares...não sei! 
Por exemplo: hoje eu queria ser:

A Maria Bonita de Lampião
A Yoko do John Lennon
A Amélia do Pe. Amaro
A Emma do Flaubert
A Capitu do Machado
A Estrela (da Vida Inteira ) do Manuel
A Dama das Camélias do Dumas
A Nancy de Deus lhe Pague

A Maria Rita do Roberto 
A Ana Karenina do Tolstói
A Casa de Rubem Alves
A Zélia de Amado Jorge
O Morro dos Ventos da E. Brontë
O catavento de Dom Quixote
O Bolero do Ravel
A Razão de Kant

Os irmão de Dostoievski
A poesia de Florbela
O Rebanho de Fernando
A Amélie do Yann
O Cântico da Cecília
A lua de tapioca do Jessier
A Camille de Rodin
A Sinfonia do Bethoven

O Retrato do Dorian
As Veredas de Guimarães 
A Sobrevivência do Graciliano
A Rosinha de Gonzaga
A Prece de Clarice
A Pilar do Saramago
As Marias da Haidée Fonseca
O luar do meu Sertão!

[Antonia Lima]

La valse d'Amélie (orchestra) by Yann Tiersen on Grooveshark