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Clichê



Deixa eu ser clichê. Deixa eu entrar no lugar comum da saudade. 

Deixa eu pensar em você e naqueles dias entremeados de vozes roucas e cabelos desgrenhados. Pensar em tuas mãos explorando minhas planícies e mapas desencontrados. Pensar em quando deixamos alguns nossos pedaços pelo caminho e quebramos, desconsertamos e tentamos arrumar tudo depois. Claro, não conseguimos. E quase esquecemos que éramos dois. E foi no quase que voltamos a acreditar que voltar no tempo das carícias seria possível, mas tudo foi um quase em vão.

Então, deixa eu pensar em você ao meu lado rindo e dizendo qualquer coisa boba. Respirar teu riso e por instantes esquecer do nosso acordo de seguirmos em paz. Deixa eu lembrar de você abraçando meus medos, pois assim posso pedir desculpas a Deus por esquecer da minha própria vida quando disse "eu te amo". Lembrei agora. Deixa eu pensar em nós. 

Sei que faltam palavras que encaixem em tudo o que eu preciso dizer. E por isso penso, não digo... Mas o tempo não falta e há tempo de sobra para lembrar, como há tempo de sobra para esquecer.

É tão estranho perceber que hoje sou eu (só) e que o amanhã será ontem - um 'para sempre' que foi quase nosso. 
Deixa eu ser clichê. Deixa eu entrar no lugar comum da saudade...

| Dulce Miller |






A capa do meu livro!

"Onde vão parar os sonhos extraviados?" - prosa poética e crônicas pela Editora Penalux - Arte da capa da querida Van Luchiari, contracapa com um escrito lindo do Marcelo Soriano e orelha do grande Giba Carvalheira! Por enquanto é só a capa, o livro chega em MARÇO!  
Mais informações, em breve!




Meu filho de papel



Quero compartilhar uma boa notícia com vocês, porque todo o meu amor pelas palavras começou aqui neste blog:

Meu primeiro "filho de papel" vai nascer em março de 2016, será publicado pela Editora Penalux, o título será Onde vão parar os sonhos extraviados? e eu acho que vai ser lindo!

Aguardem mais novidades em relação ao livro. 
Assim que receber a primeira prova de capa, eu vou postar aqui. 

Beijos e abraços felizes!

Dulce Miller




Adeus você...



Há revoluções entre países e nações, mas a verdadeira guerra diária quem enfrenta é minha alma.  contradições.

Não sei como nem por quê, mas menina, me explica por que eu amo o seu jeito, seu sorriso, o seu cheiro? O fato é que você não presta, e é o que resta... não, eu não sei de mais nada além dos sentimentos que me assustam. Você invadiu meu território seguro, jogou uma bomba de dúvidas nas minhas mais fiéis convicções e mesmo que eu tente fugir, sou atacado por aviões de ilusões.

Onde está meu porto seguro? Ele existia mesmo ou sempre estive no escuro? 

Meu coração (ou seria meu corpo?) libertino, sem minha permissão deseja você, mas a razão... essa não!

Menina que parece mais uma sina... eu não amo você porque não tem por quê, entende? Consegue entender? E minhas guerras interiores  enfrento sozinho, não preciso do seu ninho.

Tão efêmero como uma bolha de sabão, é assim seu coração e tudo o que eu menos queria é tê-lo em suas mãos (só que a distância  entre o querer e o poder é tão imensa que já não cabe em lugar algum, de tão ruim) e agora me diz, o que é que eu faço de mim?

...lembro de uma vez que  falei em seu ouvido, 'sou o seu abismo'... mas hoje quem vai pular nele sou eu e você nunca  há de me encontrar outra vez, não caio mais na sua teia.

Adeus, você.


[ Dulce Miller ]




Adeus Você





imagem daqui


Porque me deu vontade de contar...


Quando eu era criança, meu brinquedo favorito além das bonequinhas de papel, era fazer algo como arroz com batatinha ou cenoura numa fogueira improvisada no pátio de casa. Eu fazia minhas 'comidinhas' e queria que meus irmãos provassem, mesmo sabendo que não estava nada bom. O tempo passou e eu fui aprendendo. Era o começo de uma paixão e na época eu nem sabia que cozinhar pra quem a gente ama era tão bom. Mexer com alimentos, fazer uma alquimia com tantos temperos e ingredientes disponíveis, sempre foi contagiante pra mim. Cozinhar nunca foi uma obrigação, ao contrário, é diversão, praticamente um ato de amor. Sempre que cozinho algo diferente e gostoso, quando sinto a satisfação e admiração vindas de quem provou, eu sinto uma felicidade inexplicável. Meu filho sempre diz que a comida que eu faço é melhor do que qualquer restaurante que ele já foi. Quando estava na escola, ele de vez em quando levava um coleguinha em casa pra comer alguma coisa e todo orgulhoso dizia: "viu, te falei que a minha mãe cozinha tri bem". O elogio do meu filho sempre foi o mais importante, porque é para ele que sempre cozinhei com o maior amor do mundo. Cada omelete que ele adora tem pitadas generosas de carinho e muito queijo. 
O mais interessante é que descobri que cozinhar pode ser uma fonte inesgotável de surpresas. Sempre vai haver um prato diferente pra eu inventar. Sempre vai ter alguém pra provar. Porque a vida merece tempero, pede sabor. 
A única coisa que eu nunca aprendi na cozinha, é gostar de lavar louça ... Fazer poesia com panelas não combina com louça suja. Eu também não. Mas, paradoxos culinários à parte, eu quero sempre mais louças sujas na pia e principalmente, fazer arte (no sentido de bagunça mesmo) no fogão!


Pela menina cheirosa com nome de flor, o seu amor.

Eram flores de jasmim, ele sabia... ou melhor, o cheiro das flores estava impregnado no ar, mesmo não havendo flores por perto, na cidade concreto.
Mas ele sentia o tempo todo. Se havia explicação, não sabia, mas absorvia o perfume como um bálsamo.

Aquilo o deixava com um certo ar de desconfiança sobre si mesmo. Estaria ficando louco? Talvez fosse a lembrança dela, talvez um dia ele esqueceria aqueles dias tão plenos de alegria. Mas ainda não. Tudo tem um tempo certo pra acontecer e ela era como o principal botão de uma camisa que ele usava todos os dias. Algo parecido assim... era parte dele.

Pelo menos por enquanto era necessário lembrar, era preciso entender. Só que ele não entendia, ou não queria, ou não podia... Jasmim era o nome dela. Claro, não justifica a situação, mas quem explicaria tal sensação?

A saudade desmedida e o amor reprimido faziam sua alma sangrar em gotas profundas de desassossego. Ele não queria o desapego, mas ia se conformando aos poucos, com aquele sentimento que doía feito cicatriz aberta cutucada constantemente com uma faca metafórica e afiada.

Era assim que sentia, era assim que sabia sentir, era assim que se isolava do mundo.
Por ela. Por Jasmim. Pela menina cheirosa com nome de flor, o seu amor.
Que morreu tão de repente que deixou seu nome em forma de perfume exalando pelos poros da sua pele.

Era isto, ele descobrira então: Jasmim havia se transformado em perfume e continuava sendo parte dele.
Então ele sorriu chorando e fez um prece:

"Fique em paz meu anjo, que Deus te guarde e conserve sempre em mim, minha Jasmim... meu único e eterno amor"

[Dulce Miller]


Apenas o sonho e o vento me levam…




Ela ficou deitada no sofá a tarde inteira, intercalando a televisão com o rádio... Nada interessante pra ver, nem nada novo pra ouvir. Decidiu desligar tudo, rádio, TV, luzes, celular, fechar as janelas e ficar em silêncio com seus pensamentos. 

Ficar olhando para as paredes e o teto  não foi nada animador, então decidiu se arrumar um pouco e sair pra ver gente, socializar um pouco com o mundo... ela esqueceu que é um tanto quanto anti-social, mas foi mesmo assim. Saiu com receio de encontrar algum conhecido, porque ela não queria cumprimentar ninguém, muito menos conversar.

Tênis, abrigo, luvas, casaco, mãos nos bolsos, cabelos soltos ficando mais desgrenhados com o vento gelado batendo no rosto... cenário perfeito pra quem não tem nada melhor pra fazer e só quer sair caminhando pra ver gente, só ver, que fique bem claro...

Ela fez questão de encontrar os olhos de todos que vinham em sua direção, porque ela sabe que os olhos são a janela da alma, e as pessoas geralmente mostram o que pensam num primeiro olhar. Alguns foram um pouco libidinosos, outros como que perguntavam "por que está me olhando?", outros simplesmente não demonstravam reação nenhuma... e ela ficou de novo com aquela sensação de não pertencer àquele lugar, aquilo tudo não combinava com ela, as ruas, as pessoas, os cheiros, muito menos a paisagem. 

Parou numa praça sem graça e sentou, fechou os olhos, visualizou o mar que ela tanto amava e queria muito, mas muito mesmo o cheiro da maresia, ficar olhando durante horas pro horizonte infinito... mas abriu os olhos e com o coração doendo percebeu que o mar ficava muito longe dali, então teria que viajar pra fazer o que tinha vontade. E não podia viajar, pelo menos não naquele momento. Então se conformou em voltar pra casa e terminar de ler o livro que começou na semana passada, afinal, isso ia ser bem melhor do que ficar andando pelas  ruas, olhando pra tanta gente estranha, tão estranha quanto ela mesma.

[ Dulce Miller ]

Eros em luta eterna com meu coração...



Eu queria ser uma estrelinha. 
Ou talvez um pedacinho da lua, olhar lá de cima e cuidar de ti como se um anjo eu fosse.

Queria ter a visão além do meu alcance, além da minha imaginação. 
Queria te ver.
Te encontrar.
Te ter pra mim.

Eu queria te guardar pra sempre num cantinho secreto da minha alma, onde ninguém jamais pudesse alcançar. Queria tuas lágrimas entre meus dedos, beijar teus olhos e te fazer ver que o mundo pode ser bonito, que só depende do modo, da forma como olhamos pra ele...

Eu queria te tocar de mansinho, te dar todo meu carinho, te encher de beijinhos. Eu queria teu coração em sintonia com o meu, queria a certeza das convicções que nunca tive com o amor que recebi de ti. E eu queria ser tua luz e teu motivo pra acordar sorrindo todos os dias.

Eu quis tanto e nada tive...

Ainda não sei direito como lidar com tantas perdas, mas estou aprendendo, ou pelo menos tentando. O fato é que eu não queria perder nada, principalmente o amor.  Mas se eu perdi, é porque nunca tive e não se pode perder o que a gente nunca teve.

Tudo não passou de um sonho lindo que eu vivi dentro de mim, alimentado como uma plantinha rara, principalmente por ti.

Porque eu deixei.
Porque eu quis. 
Porque eu precisava. 
Porque me fazia feliz de alguma forma. 

Tudo bem... posso colocar a culpa em Eros, o deus do amor. 
Ele vive em eterna luta com meu coração. 
( é meu cupido com problemas de visão )

[ Dulce Miller ]
Imagem Pinterest





Das metades


Tantos olhares... 
Quantas vidas dentro de um só olhar e nenhum deles sabe o que vai dentro do meu. 

O mundo inteiro piscando para mim, sob o manto embrutecido das luzes da cidade. 
Eu olho e não vejo nada do que eu queria ver, porque está preso nos sentidos e no sangue.
Não tenho mais seu olhar que era afago, mas vejo seu sorriso com meu coração e isto deveria ser bom.

Vejo carinho, abraço e felicidade. Vejo suor e beijos esfomeados.Vejo amor entrelaçado.
E tudo mais que eu não queria ver de olhos fechados.

Vida partida ao meio, saudade...
... me vejo pela metade.


[Dulce Miller]
imagem daqui

Da fuga, o cl(amor).



Dá-me tua mão.
Vem cá.
Olha para mim.
Ouve-me, vou falar baixinho...
Resgata tua luz perdida na memória daquelas fotos presas 
na última gaveta do armário trancado à chave, 
não faz sentido que fiquem ali para sempre.
Onde tu estás além das janelas deste quarto?
E dentro desta casa de objetos inanimados, sem cor-amor?
Os espelhos cobertos não fazem mais sentido, entendes o que quero dizer?
Não chores, por favor...
Tuas certezas evaporaram com as migalhas que aceitaste do tempo, eu bem sei... 
então, pelo amor de qualquer deus, clame por existir aqui ou ali, tanto faz, 
eu espero, não vou mais partir!
Revive, eu te peço... sai do poço que entornou tua mente, tenta... derruba os muros e as serpentes que provocaram tanto medo. 
Grita, quebra o que quiseres, qualquer coisa, mas reage! 
Sê!
Não desperdices teu existir.
Se me quiseres, espero aqui.
Fica comigo?

[ Dulce Miller ]
Imagem daqui

Sorrisos achocolatados, quem quer?


Eu tinha 9 anos e normalmente ria de qualquer coisa, sempre brincando com meus amiguinhos da escola ou com os professores, era uma legítima “serelepe”. Um dos alunos que se sentava ao meu lado levava chocolates na mochila e vendia pra turma toda, eu era compradora assídua, chocólatra assumida desde então... o nome dele era Júlio, um menino pobre e triste, muito sério e inteligente, meu melhor amigo. O Júlio tinha um problema sério, ele não sorria nunca, nunca mesmo! Por mais que eu tentasse, não conseguia ver alegria naqueles olhinhos negros e assustados. Um dia, na hora do recreio, ele confessou que roubava de um mercadinho perto da casa dele os chocolates que levava pra vender na escola e que depois entregava o dinheiro pra  mãe (que era doente) comprar comida pra ele e os irmãos. Então fiquei mais assustada ainda, quando ouvi dele a pergunta que me deixou traumatizada: “Tu não tem problema nenhum, né Du? Tu tá sempre rindo de tudo, né?”. Ele fez essa pergunta com lágrimas nos olhos, olhando no fundo dos meus, que nesse momento choravam também.

À partir daquele dia eu não conseguia mais sorrir na escola nem fora dela, inconscientemente em respeito ao meu amigo. Os colegas estranharam, a professora chamou meu pai pra conversar, mas eu dizia que estava tudo bem… e estava mesmo, com a diferença de que eu não era mais a menina feliz que alegrava a turma inteira com tantas risadas sem sentido (?). Meu único objetivo era tentar fazer o Júlio sorrir me entupindo de chocolates: comprava pra mim, para os professores e para os colegas também.

Durante uns dias ele faltou às aulas e quando voltou, nunca mais levou chocolates; pegaram ele roubando e contaram para a mãe. Ele mentia pra ela que ganhava o dinheiro pedindo na rua. Tentei ajudar, disse que ia pedir para o meu pai, mas o Júlio não quis, disse que já tinha arrumado um emprego de ajudante numa obra perto da casa dele. Onze anos ele tinha e tantas mentiras, tanta tristeza…

Sem jamais saber, o Júlio criou sem ferimentos uma cicatriz enorme no meu coração. A ironia dessa história é que eu tinha SIM motivos pra sofrer. Na época, havia uma madrasta na minha vida que ao meu ver, era pior  que a da Branca de Neve. Ela só não tentou me matar, mas de resto não perdia em nada comparando as maldades. Meu pai (que sempre foi um homem de grande coração) saía de casa bem cedo pra trabalhar, voltava muito tarde e não sabia das surras que eu levava toda vez que reclamava qualquer coisa pra ele. Na verdade ele nunca soube, nem o Júlio, nem mais ninguém. Até hoje.

Eu era uma 'engolidora de sapos' perfeita para a idade que tinha. Ir pra  escola era minha maior alegria, amava estudar. E continuei amando os livros apesar dele, do meu amigo que não conseguia sorrir porque era pobre demais e se sentia culpado (com toda razão) por ter que roubar pra sobreviver e por isso mesmo, não sabia sonhar.

Já eu, sonhava muito com uma vida melhor e mais bonita, mesmo que inventada. Na prática, eu fazia apresentações de dança, jogava vôlei, escrevia poesias toscas no jornal do grêmio estudantil, tentei o teatro (mas isso não deu certo, foi um grande fiasco)… pensando bem, talvez isso explique muita coisa na minha vida… pois é.

Depois daquele ano, mudei de endereço e de escola, nunca mais soube notícias do Júlio, mas jamais  esqueci da tristeza que ele plantou dentro de mim, e agradeço o que ele fez.

Sim.

Graças a ele percebi que eu não era a única a sofrer, senti as dores de um mundo inteiro dentro do meu pequeno coração e, ao mesmo tempo, um certo orgulho por conseguir driblar minha dor de forma a não contaminar os outros à minha volta. O Júlio me ensinou a ter uma consciência solidária, isso é fato. Com o passar dos anos, fui resgatando a alegria da minha essência, da minha personalidade.

Quem me conhece hoje sabe que tenho uma natureza engraçada e feliz, apesar de todos os pesares que já vivi. Pretendo continuar assim, chorando sempre que sentir vontade, não importando onde eu esteja, e dando gargalhadas quando qualquer coisa fizer minha alma vibrar de alegria.

Hoje  lembrei do Júlio conversando com uma vizinha que está sempre triste. Contei pra ela a mesma história e no final da nossa conversa ela sorriu, agradeceu com um abraço e me deu um pedaço de bolo de chocolate.

Quem sabe alguém aí também está precisando de uma dose de alegria gratuita?

Sorrisos achocolatados meus, pra todos vocês!

[ Dulce Miller ]

*Na foto, é a minha sobrinha Bianca, toda suja e feliz, com um chocolate que a tia maluca (eu) deu pra ela se lambuzar de propósito só pra poder fazer a foto! 

Texto originalmente publicado no site Retratos da Alma

Rabiscos do inv(f)erno



Anoiteceu inverno. Amanheceu uma estação qualquer. Ela não percebeu que o dia havia chegado. E assim, descobriu que tinha se exilado entre muros rendilhados. Abriu os olhos. Sua derme sentia a delicadeza da brisa fria que soprava entre aquelas paredes que havia criado. Ali, criou uma falsa noção de que seria fácil derrubar as barreiras à sua volta. Tentou levantar. Caiu. Sentiu a delicadeza dos muros. Não permitiu que seus olhos alcançassem aquela estação que adoçava a sua alma. A oscilação da vontade contrariava o querer. Fechou os olhos. Sonhou acordada e elevando a alma redescobriu ser inverno e mergulhou na doce ilusão de que todo o prazer, todo o conforto podia existir dentro dele. Esqueceu os muros até o momento em que a erosão desfez todas as paredes.

Naquele instante, deixou-se ficar sentada, com seus braços envolvia os joelhos, como que protegendo algum tesouro ignorado. A luz lá fora era demasiado crua, cinza feria-lhe os olhos e a pele. Com um pedaço do muro, já quase pó, guardado na mão, permitiu sentir a estação e caminhou devagar para fora. Andando passo a passo entregando o corpo e alma ao inverno, que ao longe lhe estendia as mãos.

De súbito parou na porta sentindo o vento gelado cortando seu rosto delicado, neblina densa, intensa, parecia querer absorver sua alma inteira. E quem se importava? Não ela. Respirou fundo, sentou-se na calçada riscando o chão com o último pedaço de seu muro sagrado, fazendo alusão à sua inerente solidão. Riscou passado, presente e futuro, riscou o coração. Riscou tanto e tanto, virou borrão, poeira de giz em sua mão.

Onde estaria quem roubou seus abismos, quem levou para longe seus abrigos, abraços amigos... ela pensava e não concordava com o destino imposto. Sujeito-verbo-perfeito, sonhava acordada, sentia a conjunção das peles, relés corpos enlouquecidos pelos beijos entorpecidos de tanto querer e não puderam mais esquecer. Um em cada (en)canto, cada qual com seu pranto. Seria mesmo assim? Que fosse perfeito enquanto ilusão. Por que não?

Voltou para seu exílio, suas dúvidas e muros rendilhados que a protegiam do mundo. A sua alma fazia aquecer o inferno do seu inverno interior, não importava a estação.

[ Um texto escrito a quatro mãos, por Suzana Martins e (eu) Dulce Miller ]


Imagem daqui

Fala sério… alguém aí já levou um fora tão lindo assim?

Eu achava que estava apaixonada… mas depois de um silêncio que parecia infinito, um abraço do mais puro amor fraterno e as palavras dele, escritas como num sussurro:
Imagem daqui


"Tá, eu te amo 
mas não quero que você se magoe mais. 
Vamos por um fim nisso. 
Você segue seu rumo independente de mim 
vive suas emoções 
suas ilusões 
suas desilusões 
suas paixões e aflições... 
Só te exijo que continue me amando 
assim como me ama, 
mas não precisa ser amor de cama 
nem amor sacana 
pode ser amor assim de amigo 
daqueles em que se esquece o próprio umbigo... 
Chega de poesia, você entendeu..."


Foi um fora bem poético, não? Wink 
E o mais engraçado é que ele nunca gostou de poesia...

Isto aconteceu há alguns anos, hoje ele está até casado e tem uma filha linda, mas somos mais amigos do que nunca! Ele é alguém que eu admiro muito, principalmente pela sinceridade e confio acima de todas as coisas. Alguém que está sempre pronto pra me abraçar, ajudar seja como for e segurar na minha mão, mesmo morando a milhares de km, ele mora no meu coração e eu do dele, com certeza!

Meu amigo, meu querido amigo. Amo você, pra sempre. 

"Você significa pra mim, o que eu significo pra você"... como diz na música!

Fala sério… alguém aí já levou um fora tão lindo assim?
Open-mouthed


Republicando com os comentários originais, porque dele e de todos os amigos que tenho, os de verdade, eu sinto saudades todos os dias, mesmo que alguns estejam de alguma forma ausentes fisicamente, estão presentes na minha vida, sempre!

Porque sem ela, eu não existo.


Porque eu dormia e acordava com a voz dela ecoando em meus ouvidos.
Porque ela era inteligente, sensual e tinha o sorriso mais lindo que meus olhos puderam beijar.
Porque eu chorei noites inteiras por medo de perdê-la.
Porque a vida sem aquele doce e suave "bom dia" não tem valor nenhum.
Porque meu mundo sem o "boa noite, meu amor" não permite mais que eu durma em paz.
Porque tudo o que eu sonhei pra mim tem a imagem dela como moldura na cama e na alma.
Porque o ar que eu respiro só fazia sentido quando era o cheiro dela impregnado na minha pele.
Porque eu achei que o amor que eu sentia, era suficiente pra nós dois.
Porque o Senhor escreveu torto por linhas incertas e impossíveis.
Porque amar simplesmente, não bastou.
Porque eu acreditei que só precisava mentir... e menti.
Porque ela acreditou... e me amou por tudo o que eu não era...
Porque uma ferida enorme está aberta no meu coração, sangrando todo dia em lágrimas.
Porque tudo o que eu quis dela, ela não suportou.
Porque tudo o que eu sentia, ela não entendeu. E sofreu. E morreu por isso.
Porque acabaram-se as raízes da nossa história e só (re)encontrá-la me salvará de mim mesmo.
Porque querer viver depois dela, é impossível.
Porque sem ela, eu não existo.
Porque nada mais importa.
Porque o que era "para sempre" agora é "nunca mais"...

[ Dulce Miller ]

Imagem daqui

Vulneravel(mente), sós.


Ele queria se perder, ele podia manter-se daquela forma, sem definições. Ele queria sentir, mas sentir não era permitido, como se amar fizesse dele, coração partido. Nada foi premeditado, nem o sorriso dela, nem os pensamentos fixos dele(s). Nada foi consentido, nem o interesse dela, nem os devaneios dele(s). Tudo aconteceu na contra-mão, mas é claro, nada foi em vão.

Ela queria se render, mas não devia. Ela queria aquele sentimento, mas o momento não era de viver, era de morrer para toda e qualquer possibilidade. Ela não concebia o tempo, absorvia o vento como se fosse o pensamento: dele. Ele, sorvia o restante dos momentos que viviam em um mundo paralelo ao que conheciam e nem percebiam. Toda concepção da verdade, era irrealidade, não ia a lugar algum, não havia futuro, não existia lugar nenhum.

Existia a vontade e esta era toda a verdade, a única... de ambos.

[ Dulce Miller ]


imagem daqui

Da série: coisas que só acontecem comigo?

Diário de uma desastrada:

Sábado, 30/03/2013 - Sabe aqueles dias em que você não deveria sair da cama porque dormir o dia inteiro seria mais seguro? Acordei com uma dor de cabeça terrível e a primeira coisa que consigo fazer ao levantar é bater com ela no guarda-roupa e nem sei como não cortei a testa de tão forte que foi a batida! (não perguntem como consegui bater a cabeça, nem eu entendo, enfim...) Depois tropecei na rua e torci o pé. Tá doendo, mas perto da cabeça... daí que eu chego em casa cheia de sacolas e a porta não abre. Sim, deixei a outra chave pelo lado de dentro e a porta não abre de jeito nenhum. O chaveiro não quer vir até aqui arrumar a 'M' que eu fiz e eu tô sentada no chão escrevendo no celular pra desestressar. Não sei mesmo o que fazer além de quebrar a janela pelo lado de fora... Se conseguir entrar em casa hoje, vou hibernar.

Obs: no mesmo dia, ao fazer o almoço, cortei  DOIS dedos.

Mais um dia, surreal:

Terça, 02/04/2013 - Ter que (literalmente) fugir DUAS vezes, no MESMO dia (em lugares completamente diferentes da cidade, em dois horários incompatíveis) da MESMA criatura (tarada)... não é coisa de Deus. Só digo duas coisas... que eu consegui escapar e que ele vá pro inferno... Que raiva!

Depois disso, tá tudo tranquilo... 



[ Dulce Miller ]

Adeus ao sinto muito do meu jeito!



Porto Alegre, 28 de novembro de 2010


Querido Ricardo!
Faz muito tempo que penso em escrever, mas hoje tive um incentivo a mais além da saudade, uma coisa importante pra contar! 
Veja você como são as coisas! Foi num porre de vinho que tomei sozinha em casa, que percebi o quanto ainda sinto saudades. E foi no meio desse mesmo porre que chorando eu ergui as mãos para o alto em agradecimento ao amor que vivi - uma cena ridícula lembrando agora, enfim...
Naquele momento eu me fiz as mesmas perguntas: Por que tudo tem que ter um fim? Mas por que mesmo, se eu era tão feliz? Bom, acho melhor omitir aqui as respostas que eu mesma declamei em alto e bom tom - outra cena ridícula de lembrar - não ia ser legal repetir os palavrões que profanei, não é mesmo?
Tá bom... vai me dizer agora que você nunca sofreu por amor? Vai me dizer também que nunca fez bobagem depois de beber além da conta?
Mas fique tranquilo, desta vez não fiz bobagem nenhuma, foi só um fiasco interno. Acho que chorei alto sem parar durante quase uma hora pelos meus cálculos... nem sei de onde saíram tantas lágrimas aliadas à vontade de relembrar os bons momentos. Acho que estava tudo reprimido, afogado, congelado, sei lá... de repente eu percebi que fugia o tempo todo dos meus próprios pensamentos, acredita? Só sei que hoje me sinto melhor, apesar da ressaca ser mais moral que física.
Acordei do porre e de todos os sentimentos vomitados com uma vontade imensa de te escrever e contar deste meu alívio. Parece que consigo ver sua expressão de interrogação a perguntar: “Então... agora consegue perdoar?” E eu continuo dizendo que NÃO. Talvez eu não seja capaz de perdoar nunca. Bem que eu queria ter esta grandeza de caráter mas não tenho, lamento... um dia, quem sabe?
Agora, no final das contas eu me vejo com saudades do que vivi, sim... mas plenamente consciente de que não estou mais apaixonada, porque eu não sou burra nem masoquista. Você vivia repetindo isto, lembra? Pois então, agora eu acredito! E também não vou me transformar numa mulher revoltada nem amargurada. Não mesmo. Estou pronta para amar e se for o caso, quebrar a cara de novo quantas vezes forem necessárias! 
Amor é vida, paixão é vício e foi justamente com você e com sua sede de viver que aprendi isto. Lembra do poema da Elisa Lucinda que você me enviou na sua última carta? Então… ele é perfeito para mim agora! Bom, melhor parar por aqui porque já escrevi demais por hoje!
Obrigada por ser meu porto seguro onde eu posso sempre ancorar minhas alegrias e minhas tristezas! Um beijo da sua irmã caçula, que te adora e morre de saudades! Me escreve logo, tá? 
Júlia.



[Dulce Miller]



Safena

Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.

Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!

Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.

Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito

Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões

Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo

Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate

O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.

[Elisa Lucinda]

Imagem daqui

A traficante do amor


Ela vivia aquela história com a intensidade de quem sabe que tudo pode terminar a qualquer momento. E foi assim, como se atirar num abismo e absorver cada pedacinho de todas as lembranças, cada fragmento espalhado nos ventos de uma memória congestionada de sentimentos ambíguos, porém verdadeiros.

Histórias mal resolvidas são angustiantes, mas não deixam de ser uma espécie de alimento para um coração que vivia traficando amor. Era frustrante, ela sabia, mas se a ilusão acabasse seria bem pior. Os restos e raspas do que parecia imortal poderiam ser traumatizantes naquele instante, porém não havia outra opção, infelizmente, não...

E então ela pensava: 'Ou vivemos nossa história ou fugimos dela e eternamente imaginamos como poderia ter sido, se...' como  cantava  Djavan, ela não suportava um 'Se'!

Mas... e ele?

Não importava nem um pouco. Importava mesmo era satisfazer seus desejos de qualquer maneira. Esta era ela e seria sempre e só, ela. E ninguém tinha nada a ver com suas escolhas.

O amor foi seu algoz, o seu pesadelo mais feroz... mas com o tempo veio a cura. E agora ela fazia o que queria com ele.

[ Dulce Miller ]


imagem daqui


Maria e a estranha mania de ter fé na vida...



Assim como num rompante, depois de terem pensado por uma tarde inteira, o nome da menina surgiu com uma explosão de risos - Maria. Tão simples e tão complexo, ao mesmo tempo definia muros de imensidão - tudo. 

O que aconteceria depois daquela tarde eles não sabiam, mas podiam prever que não seria fácil para ambos e o nome escolhido nada tinha a ver com destino - coincidência, talvez.

Maria cresceu rápido, o tempo colaborando com a ansiedade de uma vida em plenitude. Sabores, saberes, sentidos. Vivências aprendidas, repreendidas, conquistadas, lamentadas, assim como qualquer outro ser humano, Maria era única, mas ainda não sabia. 

Lembrava dos pais como amigos/irmãos, como cúmplices na sua jornada na terra. Ambos foram embora muito cedo, mas não sem antes ensinar à menina como se comportar no mundo. E ela lembrava todos os dias ao acordar que viver deveria ser sinônimo de alegria ( e era, para ela).

Maria respirava sorrisos, transpirava força e fé na esperança de um mundo melhor que ela só conhecia integralmente dentro do seu coração frágil e incoerentemente, tão enraizado de alma. 

"Ave maria tão cheia de graça, por onde passas os pássaros são flores... Rogai por nós dias felizes e nunca deixeis de lado a estranha mania de nos fazer crer na fé, na vida, pois tudo é infinito e além.Eu creio - amém." a oração que seu pai adaptou especialmente para ela servia como um mantra nos dias nublados. E quando a chuva caía, a renovação se fazia necessária. Maria absorvia tudo na natureza como se fosse parte dela mesma, como se a cada amanhecer pudesse entender um pouco mais do mundo e das pessoas.

Nada de mais, nada de exuberante muito menos insosso, o que definia Maria era o amor sob todas as suas formas. Risos em profusão, lágrimas disfarçadas no travesseiro - seu melhor confidente. Ela acabou compreendendo que certas coisas simplesmente precisavam de alguns "ajustes" para que fossem aceitas sem dor. E tudo o que era complicado para ela, ajustado ao seu mundo, iluminava a mente como uma luz imensa e interminável, trazendo conforto e sabedoria. 

Esta era Maria, um ponto de luz no mundo, que não era ninguém mais além dela mesma. Um ser comum e especial, um sereno-Ser-humano.

*Maria possuía delicadeza e força que é adjetivo inerente à todas as mulheres. Que este dia não seja especial como uma simples data a ser lembrada, mas que todas as Marias sejam valorizadas todos os dias, porque ser mulher em toda sua plenitude, é ser ÚNICA.

[Dulce Miller]



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De Janeiro a janeiro


Enquanto digitava com luvas no inverno porque o frio era quase insuportável, eu insistia em ficar ao seu lado, mesmo quando minha cama quentinha chamava, era por sua companhia que eu ficava.

Eu te amei na primavera, enquanto as flores brotavam devagarinho revelando os seus segredos, que fui desvendando aos poucos porque você tinha medo de contá-los.

Te amei no verão com a amizade e a paixão instaladas definitivamente no meu coração, não tinha mais jeito não…

Te amei no outono, você já era meu dono, do meu corpo, da minha alma, de todo meu ser. Mesmo sem te conhecer, eu te sentia como a lua presencia o amanhecer. Todos os dias, todos os minutos, você era meu bem querer.

Eu te amei em todas as estações, por um ano inteiro. Eu te amei com todas as verdades do meu viver e com todas as mentiras do seu querer.

Eu te amei como deveria ser… mas nunca foi.

Um dia, você me atropelou e eu caí no abismo profundo da dor, do que nunca se viu, do que nunca se sentiu com os próprios olhos, com as próprias mãos.

Eu fiquei no chão implorando sua atenção e você se foi para sempre, sem nunca ter chegado, sem nunca ter ficado, sem nunca ter me amado.

E só então  percebi que foi uma via de mão única, mas você me fez acreditar que era dupla. Porém a culpa não é e não foi de  ninguém.Hoje eu consigo ver o que aconteceu como um monólogo compartilhado com um ser tão carente quanto eu me permiti ser.

Eu deixei acontecer.
Porque sempre acreditei que o nosso “the end” fosse um “happy end”.


[ Texto meu, inspirado na música 'De janeiro à janeiro' de Roberta Campos & Nando Reis, publicado originalmente no site Retratos da Alma em abril de 2011 ]



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