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Tão eu...





Poeminha Amoroso

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
"eu te amo, perdoa-me, eu te amo..." 

[ Cora Coralina ]

Imagem daqui

Fragmentos de Flora Figueiredo


A pedidos
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.

Comunicado
Só por hoje
vou rasgar os códigos.
Desacato as regras,
os preços módicos.
Só por hoje
desacredito das retas,
descarrilho do trilho,
desvio das setas.
Preciso de tempo pra sonhar,
respirar fundo e carregar na mão
o sal da vida e o mel do mundo.
Se o compromisso tocar a campainha,
peço que aguarde na casa vizinha,
mansamente, sem fazer alarde.
Mas comunico a todos pela imprensa
que sumiu a lucidez.
Pediu licença.
É só por hoje,
mas agora é minha vez.

Flutuações
O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.

Enlevo
Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo

Retirada
Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.
É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto,
rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.

Vento novo
Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.



Bio-bibliografia:
Poetisa, cronista e tradutora paulista, é autora de Florescência (1987), Calçada de Verão (1989) e Amor a Céu Aberto (1992). São características da poesia de Flora Figueiredo: a linguagem concisa, a economia e sutileza verbais, onde o silêncio entre as palavras é também instrumento de comunicação da emoção. Flora, ao compor, sinaliza ao leitor caminhos a seguir, indicando sempre a intimidade do sentir com firmeza e argúcia. Percebe-se em sua escrita, a familiaridade com o traçado das estradas do coração. O romantismo, a sensualidade e a irreverências são aspectos consistentes e marcantes de sua poética. Flora nos diz que ao compor, tenta “beijar a alma do leitor”. E isto acontece facilmente, quando nos deparamos com sua tônica lírica e seu idioma de ternuras. Foi prefaciada por personalidades de renome do mundo literário, como Olavo Drummond, Fábio Lucas, Josué Montello. Flora possui livros que são utilizados na rede municipal de ensino de São Paulo. Suas obras também estão entre as produções brasileiras que constam do Centre International d'Etudes Poétiques.

Poemas e biografia retirados do Jornal da Poesia

Quando a música é poesia, quando a poesia é música.




Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

[Fernando Pessoa]


...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade. 

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)

Fragmentos de Ana Jácomo


Lembrar com amor é oferecer, no coração, um sorriso que se expande. É um jeito instantâneo e poderoso de prece. É um modo de abraço, não importa o aparente tamanho da distância, nem as enganosas cercas do tempo. Lembrar com amor é levar a vida, no exato instante da lembrança, ao lugar onde a outra vida está e plantar uma nova muda de ternura por lá.

Às vezes eu tenho a impressão de que alguns sorrisos são ondas que começam no coração, brincam de sol nos olhos e, instantaneamente, levam clarão para a boca, para o rosto todo, para a vida inteirinha.

De vez em quando, surge um vento mais forte e fecha as janelas pelo lado de fora.Quando acontece, é bobagem tentar brigar com o vento.A gente espera ele esvaziar e reabre as janelas pelo lado de dentro.

O amor não correspondido capaz de mais nos ferir é o que a vida nos dedica e nem sempre retribuímos. Chega uma hora em que ela cansa, com razão, de amar sozinha.

Encontros preciosos não são necessariamente os que nos trazem jardins já floridos. São, um bocado de vezes, aqueles que nos ofertam mudas.

Às vezes pode parecer muito, mas arriscar um único passo, talvez o primeiro deles, além do território do medo de avançar pode ser a coragem que convida os outros passos todos. Com medo e tudo.



A vida, bordadeira de surpresas bonitas que também é, de vez em quando borda no tecido do caminho da gente umas histórias aparentemente sem pé nem cabeça, mas com muito coração. E é o coração que pode encontrar importância no significado do bordado. Reverenciar a mestria, a ternura, o requinte do humor da bordadeira. A sua perspicácia. A sua visão amorosa. Sentir a qualidade de textura dos fios de sabedoria que ela usou para bordar a surpresa. É o coração. Não, necessariamente, a circunstância.

Ilusão: um lugar de areia movediça pra alma, onde a gente pisa jurando que é jardim.

Se, por medo da frustração, a gente esquece os sonhos mais preciosos que tem e não espalha ações pelo caminho com a intenção de realizá-los, como eles podem lembrar que a gente existe?

Costumo acreditar que, em grande parte das circunstâncias, por mais incrível que às vezes pareça, o outro está fazendo o melhor que pode e se não faz mais é porque, embora queira, ainda não consegue. Acredito nisso porque costumo lembrar que, em grande parte das circunstâncias, por mais incrível que às vezes pareça, faço o melhor que posso e se não faço mais é porque, embora eu queira, ainda não consigo. Generosidade é também questão de memória.

 

 Às vezes é preciso diminuir a barulheira, parar de fazer perguntas, parar de imaginar respostas, aquietar um pouco a vida para simplesmente deixar o coração nos contar o que sabe. E ele conta. Com a calma e a clareza que tem.

Amigo, obra-prima que conta o milagre que acontece toda vez que a vida arruma um modo para aproximar as almas irmãs. Buquê de risos desarmados, olhares que ouvem, abraços que dizem. Árvore frondosa e a sombra dela, onde podemos descansar um pouco, ouvir o canto bom de um passarinho e outro, sorrir para a folha que sabe dançar mesmo quando cai. Lugar de azul macio quando faz sol no coração da gente e quando as chuvas mais fortes alagam nossos olhos. Canção feita de acordes que acordam belezas que às vezes demoram à beça para cantar de novo. Uma ideia feliz do quanto o amor é pura arte.


Twitter: @Ana_Jacomo


Meu nome todo é Ana Cláudia Saldanha Jácomo. Nasci no Rio de Janeiro, onde moro, na madrugada chuvosa de uma segunda-feira de março. Coincidência ou não, é de madrugada que meus textos costumam nascer. Quando isso acontece é como se fosse manhã de céu azul altas horas da noite. Escrever é o meu trabalho mais lúdico. Meu jeito preferido de prece. Minha maneira predileta de levar o coração pra pegar sol.


Mulheres

arte de Ton That Bang
Mulheres

Bonitas ou feias,
gordas ou magras.
Amadas, esquecidas.

Dependentes ou não.
Carentes, envolventes.
Submissas, acreditas?

Quando amigas são fiéis.
Se inimigas são cruéis.
São mães e amam demais.

Perdoam e se doam.
Dizem não e cortam,
despedaçam o coração.

São avós e deixam tudo,
atendem pedidos
fazem carinho – fadas.

São amantes que choram,
riem e compartilham.

Trabalhadoras, sustentam,
enfrentam resignadas
duas, três jornadas.

Diferentes ou iguais
poderosas, virtuosas, evoluem.

Velhas ou meninas
puras ou impuras
cristalinas.

Masculinas e femininas
são controvérsia e emoção.

Ser mulher é um jeito
de viver, amar e crescer.
Por natureza ou opção.

[Ana Mello]

Ana Mello escreve no Recanto das Letras  e no Site Oficial dela - Vale Conferir!

Desanoitece


Desanoitece

O que ama de verdade
não sobra
é a herança do que segue
raízes
ao que virá

um vento que escreva com o céu
uma estrada de pedras...
... talhadas de abraços
pele sagrada
densa e antinatural

ao léu,
uma montanha se curva
e para que a lua durma,
o sol, amplia seus raios
a cada nova paisagem

desanoitece...


[Poema de Carmen Silvia Presotto by Vidráguas]

Imagem daqui



A Maria Bonita de Lampião

Arte de Alfredo Palmero
A Maria Bonita de Lampião

Há dias que a gente quer ser pessoas, coisas, lugares...não sei! 
Por exemplo: hoje eu queria ser:

A Maria Bonita de Lampião
A Yoko do John Lennon
A Amélia do Pe. Amaro
A Emma do Flaubert
A Capitu do Machado
A Estrela (da Vida Inteira ) do Manuel
A Dama das Camélias do Dumas
A Nancy de Deus lhe Pague

A Maria Rita do Roberto 
A Ana Karenina do Tolstói
A Casa de Rubem Alves
A Zélia de Amado Jorge
O Morro dos Ventos da E. Brontë
O catavento de Dom Quixote
O Bolero do Ravel
A Razão de Kant

Os irmão de Dostoievski
A poesia de Florbela
O Rebanho de Fernando
A Amélie do Yann
O Cântico da Cecília
A lua de tapioca do Jessier
A Camille de Rodin
A Sinfonia do Bethoven

O Retrato do Dorian
As Veredas de Guimarães 
A Sobrevivência do Graciliano
A Rosinha de Gonzaga
A Prece de Clarice
A Pilar do Saramago
As Marias da Haidée Fonseca
O luar do meu Sertão!

[Antonia Lima]

La valse d'Amélie (orchestra) by Yann Tiersen on Grooveshark

Vergonha!


"Num mundo em que há migalhas e desperdícios,
pratos cheios de restos enfastiados
e bocas que salivam sem ter pão;
e em que há crianças tristes, maltrapilhas,
que não terão nem livros nem recreios
nem mesmo infância no seu coração;

num mundo onde os enfermos são tratados
com a caridade irônica dos homens
proprietários dos próprios hospitais;
onde alguns já nasceram infelizes
e hão de viver sem segurança e paz,
sem meios de lutar, abandonados,
e outros, trazem do berço as regalias
que hão de inutilizar, despreocupados;

num mundo, onde há mãos cheias, trasbordantes,
e há mendigando, pobres mãos vazias;
onde há mãos duras, ásperas, cansadas,
e suaves mãos inúteis e macias;
onde uns têm casas grandes, com jardins,
e outros, quartos estreitos, sem paisagem;

num mundo onde os artistas prisioneiros
fazem "roda" nos mesmos quarteirões
sonhando sempre uma impossível viagem;
e há homens displicentes, nos navios,
carregando "kodaks" distraídas
que têm mais alma que os seus olhos frios,
num mundo onde os que podem não têm filhos
e os que têm filhos, quase sempre lutam
porque não podem constituir um lar.

num mundo, onde ao mais leve olhar humano
vê-se que não há nada em seu lugar.
e onde, no entanto, fala-se em Direito,
em Justiça, em Razão, em Liberdade;

num mundo onde os que plantam, pouco colhem
e os que colhem, não sabem, na verdade,
de onde vêm as colheitas que consomem;
num mundo, onde uns jejuam muitos dias
e outros, por vício, muitas vezes comem,

Sinto a angústia fatal de ter nascido
e a suprema vergonha de ser homem!"

[Poema de J.G.de Araújo Jorge]

Fragmentos sobre poesia!


"Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo."
(Carlos Drummond de Andrade)
"Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia." (Garcia Lorca)
"A poesia é a arte de materializar sombras e de dar existência ao nada." (Edmund Burke)
"Infelizmente, exige-se pouco de nosso poeta; menos do que se reclama ao pintor, ao músico, ao romancista..." (Carlos Drummond de Andrade)
"O sentimento é a poesia da imaginação." (Alphonse de Lamartine)
"A poesia é um espelho que torna bonito aquilo que é distorcido."
(Percy Bysshe Shelley)
"A poesia genuína pode comunicar-se antes que se seja compreendido."
(T. S. Eliot)
"Um outro dia, embaixo da chuva, esperamos um barco à beira de um lago; a mesma lufada de aniquilamento me atinge, desta vez por felicidade. Assim, às vezes, a infelicidade ou a alegria desabam sobre mim, sem nenhum tumulto posterior, nenhum outro sentimento: estou dissolvido, e não em pedaços: caio, escorro, derreto. Este pensamento levemente tocado, experimentado, tateado (como se tateia a água com pé) pode voltar. Ele nada tem de solene. É exatamente a doçura." (Roland Barthes)
"A poesia é a música da alma, e, sobretudo, de almas grandes e sentimentais." (Voltaire)
"A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos." (Rabindranath Tagore)
"A mais humilde canção popular, quando imbuída de humanidade, é poesia." (Benedetto Croce)
"Digamos que existem dois tipos de mentes poéticas: uma apta a inventar fábulas e outra disposta a crer nelas. (Galileu Galilei)
"Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento e o pensamento encontra palavras." (Robert Frost)
"A poesia é o sentimento que sobra ao coração e sai pela mão."
(Carmen Conde)
"Só os poetas podem condensar a experiência humana, e isso não passa pelo intelectual." (Fayga Ostrower)
"A poesia é mais fina e mais filosófica do que a história; porque a poesia expressa o universo, e o história somente o detalhe." (Aristóteles)
"O esplendor da relva só pode mesmo ser percebida pelo poeta. Os outros pisam nela. Um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa." (Voltaire)
"Desconfia da tristeza de certos poetas. É uma tristeza profissional e tão suspeita como a exuberante alegria das coristas." (Mario Quintana)
"Poesia são pensamentos que respiram, e palavras que queimam."
(Thomas Gray)
"A poesia é uma forma de produção. Dificílima, complexíssima, porém produção." (Maiakovski)
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
Paulo Leminski
O verso na imagem também é de Leminski!

Encantamentos


A Gratuidade Das Aves e Dos lírios Por Manoel de Barros

Só porque foi, e voou...


Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

[Fernando Pessoa]


Imagem daqui

I carry your heart with me



I carry your heart with me

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

(E.E.Cummings)


Carrego o teu coração comigo

carrego o teu coração comigo (carrego-o em
meu coração) nunca estou sem ele (onde
eu vou tu vais, querida; e o que é feito
só por mim és tu que fazes, meu amor)
eu não temo nenhum destino 

(tu és o meu destino, meu doce) eu não quero
outro mundo (pela tua beleza ser o meu mundo, minha verdade)
e tu és seja o que for que a lua signifique
e o que quer que o sol cante sempre és tu

aqui está o segredo mais profundo que ninguém sabe
(a raíz da raíz e o botão do botão
e o céu do céu da árvore chamada vida; a qual cresce
mais alto do que a alma espera ou a mente esconde)
e este é o milagre que mantém as estrelas separadas

carrego o teu coração ( carrego-o em meu coração)

(Tradução de J.T.Parreira)
Imagem daqui

"Esse é o meu jeito desajeitado de te amar" by @ritaschultz


 "Eu te amo como a pétala da rosa que perturba a água cristalina, como o aroma doce e quente trazido pelo ar. eu te amo mais, muito mais do que o medo que tenho dos trovões e dos raios que caem nas montanhas, e anunciam a chuva inesperada. eu te amo, não porque tu és o ar que eu respiro, o vento que sacode as andorinhas nos fios, e leva os pardais para além da imensidão dos seus voos e de suas asas pequeninas. eu te amo porque nosso tempo é sem promessas, porque entre nós existem dois corações num só ritmo e também, eu te amo, sabe, porque eu não conheço outro jeito. esse é o meu jeito desajeitado de te amar."

  
Imagem daqui

"Outro alguém" por Marco Antonio - @marco_sa

As vezes eu só preciso de alguem para conversar
Outro alguém

senta aqui
vamos conversar
tire esses sapatos
pegue uma almofada
pode demorar…

olhando você assim
esse olhar distante
não sei se vai me dar ouvidos
mas valorize esse instante

sabe, sempre te amei
acho que ainda estou amando
mas tem um outro alguém
talvez seja esse nosso fim

agora está você
morrendo de ciúmes
não quero machucar
só não quero mais viver
sonhos que não são os meus

sabe, sempre te amei
acho que ainda estou amando
mas tem um outro alguém
estou gostando mais de mim…

Marco escreve no blog Marco S/A e é um dos meus parceiros no Coisas Nossas
Sabe quando você lê algo que outra pessoa escreveu e pensa "nossa, isso tem tudo a ver comigo, por que não escrevi algo assim?" Desta vez não foi necessário, pois os sentimentos no mundo inteiro acabam sendo os mesmos e encontramos as palavras certas para nós (e a música certa), através dos poet'amigos!

 

Apresentando Poesia: Nostra Dolce Vita

É mais um dos meus... dos nossos na verdade! Lá somos em seis escritoras, mas em cada post aparece um "poet'amigo" para colaborar. O blog surgiu de um grupo fechado no Facebook - os "Escrevinhadores" - criado pela Glória Diógenes e o nome do blog foi sugestão da Flávia Braun. É um blog basicamente de frases complementadas, formando poesia pura. Foi um blog feito com muito cuidado, usando mais um dos templates da minha querida Ariane, que tem um ótimo gosto para criar templates aliás, o deste blog também é dela! 
Espero que gostem. É só clicar -----> Nostra Dolce Vita <-----

Porque é isto o que desejamos para todos vocês, nada além de uma doce vida!
Beijos e sejam sempre bem-vindos, lá e aqui!


Por que você não experimenta?


Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza-Ceará, em 17 de novembro de 1910 e faleceu no Rio de Janeiro em 4 de novembro de 2003. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 4 de agosto de 1977 e recebida em 4 de novembro de 1977 pelo acadêmico Adonias Filho.

Telha de Vidro

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha…
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô…
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha…

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro…
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade…

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia…
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa…
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão…
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida…
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

[Por Rachel de Queiroz]

Por vários motivos, me identifiquei muito com esta poesia!



Para ler, guardar no coração e nunca mais esquecer!

É Proibido
É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.
[Pablo Neruda]
Imagem daqui

A Arte de ser feliz





Houve um tempo em que minha janela abria sobre uma cidade
que parecia ser feita de giz.

Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando 
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de cada janela, 
uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

[ Cecília Meireles ]


"Por que é que de tanto ver, banalizamos o olhar? 
É preciso enxergar para viver o que há para ser visto, 
olhar com os olhos da alma"
Du

O amor é para os fracos?




Hoje eu fiz esta pergunta para meu amigo Denis lá no Twitter, e ele respondeu com o último trecho de um poema de José Régio - Cântico Negro:
“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”


E completou a resposta para mim, com a seguinte frase:
"A fraqueza está no muito querer e no quase nada doar"

O Denis além de poeta, é um sábio. Para ler os textos lindos que ele escreve, é só ir lá no Bah!rBoletras

Fragmentos de Ana Cristina Cesar

Psicografia
Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
Poesia
jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que
recuam
ausência freqüentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta
Flores Do Mais
Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
Deus na Antecâmara
Mereço (merecemos, meretrizes)
perdão (perdoai-nos, patres conscripti)
socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
hora atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero partir ao repartir
filho
pai
e
fogo
DE-LI-BE-RA-DA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós (com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
Um Beijo
que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.
Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d'água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade
te livrando
castillo de alusiones
forest of mirrors
anjo
que extermina
a dor
Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
Poemas daqui
1 - Biografia Sucinta
Ana Cristina Cruz César, nasceu no Rio de Janeiro em 2 de junho de 1952, tendo, desde cedo, demonstrado talento e gosto pela arte de escrever.  Já em 1959, tinha as primeiras poesias publicadas no “Suplemento Literário” da “Tribuna da Imprensa”.  Foi Licenciada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1975, obtendo o grau de Mestre em Comunicação, pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1979 e Master of Arts in Theory and Practice of Literary Translation, pela Essex University, na Inglaterra em 1980. 
Ana gostava profundamente de escrever.  Além de suas inumeráveis poesias e cartas, escreveu para diversos jornais e revistas e traduziu diversos autores estrangeiros. Entre esses autores, inclui-se a poetisa americana, Sylvia Plath, que da mesma forma que Ana César faria mais tarde, colocou um fim à sua própria vida. 
Ana C. morreu em 29 de outubro de 1983 e, com certeza, pela sua juventude e beleza, pelo conteúdo e forma de sua obra, pela interrupção brusca de sua vida e do seu talento, tornou-se um símbolo e um ícone.  Quando a vida segue o seu curso normal, as pessoas têm tempo de se preparar para a passagem daqueles que, de alguma forma, têm parte ou influência em suas vidas.  Isso não acontece, em casos como o de Ana César, onde a ruptura abrupta sempre deixa o único recurso de uma saudade brutal ou de uma veneração desmedida.  De qualquer forma é importante a noção, e o consolo, de que as pessoas se perpetuam, nos corações e nas almas,  pelo que  deixam, na forma de obras materiais, como é o caso de Ana César, ou através das lembranças de atitudes, palavras ou gestos, que podem fazer melhor a vida dos que ficaram..  Dentro dessa ótica pode-se entender  o seguinte poema:
Ausência
Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta..
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade – Com o pensamento em Ana Cristina)
Biografia daqui