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Você tem certeza que vive na realidade?

© Sean & Seng


Por diversas vezes na minha vida, quando planejava fazer algo diferente ouvia das pessoas: Seja realista! Ah! Faço a ressalva de que esse “algo diferente”, era sempre ligado mais a ações generosas que egoístas... 

Não vou aqui começar uma discussão teórica (e chata) sobre o que é realidade, mas podem ter certeza que a realidade existe e o único problema que temos é que, geralmente, estamos errados na nossa percepção sobre ela... 

Acredito que o principal motivo da nossa distorção perceptiva seja a valorização de um individualismo egoísta, que nos incita a forjar um poder e um prazer ilusórios sobre nossas vidas e nos faz acreditar que podemos viver somente para nós e por nós. 

A partir de então, se criam sociedades cruéis e relacionamentos humanos que parecem ignorar a sua finalidade de completude e transformação como se isso, fosse a única realidade possível. Para viver de forma realista, é inadiável sairmos dessa irrealidade egocêntrica, para a verdade de que partilhamos a vida com todos criando a realidade partir de cada “respir/AÇÃO”. 

Quer percebamos ou não, seremos sempre seres interdependentes: construindo ou destruindo, separando ou agregando, alterando nossas vidas e a vida das outras pessoas, tanto para o bem como para o mal. Estamos vivendo numa irrealidade esquizofrênica causada principalmente pela separação entre o que queremos realmente da vida e como vivemos. 

Uma das maneiras de voltarmos à realidade, é prestar mais atenção nos nossos desejos mais íntimos: será que eles se conectam como o que nos foi ensinado a desejar? O sofrimento, muitas vezes, é o aviso de que saímos da direção certa, entretanto estamos prosseguindo cegos, surdos e mudos pela dor; confundindo um papel de parede rabiscado de inseguranças tolas e pintado com as cores da ilusão com a verdadeira paisagem da vida: a solidariedade; onde a generosidade, longe de ser irrealista, nada mais é que o reflexo da percepção realista de nossa vida de comunhão. 







Restaurando o confiar

Imagem daqui


A confiança faz parte do amor e por isso é uma das sensações mais agradáveis que podemos experimentar na vida. 

O sentido da palavra confiança é fiar junto, ou seja, confeccionar mutuamente um tecido que tem o poder de nos aquecer para o enfrentamento do frio da existência. Quando esse tecido é rasgado, ainda assim, pode-se fazer um remendo bonito através de atitudes restauradoras. 

Para sermos alfaiates e costureiras de sucesso, esse reparo precisa ser feito através de um esforço interno de mudança; é necessário um empenho de tal profundidade que leve a quem costura não ser mais a mesma pessoa que causou o rasgo. Explico: É primordial o arrependimento em relação a quebra da confiança, mas só ele não será suficiente para a restauração do vínculo rompido; no máximo o resultado será um remendo grosseiro que não traz de volta a beleza da relação. 

O arrependimento, na maioria das vezes está mais ligado às consequências do que as motivações de uma ação, ou seja, a pessoa não se transformou ao se arrepender e, provavelmente, está sendo movida pelos mesmos sentimentos e necessidades que a levaram a destruir a confiança depositada nela. 

Não basta "querer ser" um restaurador para reparar a seda tão bonita e delicada da confiança; é necessário "sê-lo”.


| Angela Regina - Psicoterapeuta |

dia logando, dia sonhando...



São Paulo, 30 de setembro de 2014

Querida moça do sonho:


Hoje acordei teimosa e resolvi te escrever. Teimosa porque insisto em sonhar, mas você sabe: as pessoas estão cada dia mais hostis  em relação aos que sonham.  Creio que seja porque seus sonhos morreram e elas não souberam enterra-los para usar como adubos para novos sonhos...

Às vezes, acho que a raiva que vem delas, quando conto meus sonhos, deve ser dó... Vai ver elas se preocupam comigo... Sonharam, sofreram e não querem reviver a dor delas na minha previsível, e segundo elas, inevitável dor...

Sabe, vivemos em uma sociedade onde uma coisa natural da vida, o sofrimento, se tornou um grande pecado. Se você sofre pelos seus sonhos, você é ingênuo, ou fraco, ou fora da realidade: um tolo, que mais do que merecer sofrer, deve se envergonhar também de seu sofrimento!
- Será que os teimosos são menos felizes que os raivosos?
- Será que os teimosos são mais infelizes que os que secaram o coração e o tornaram um deserto frio?
- Será que os esquecidos de sonhar são mais felizes que os teimosos de sonho?

Ah! Não. Não são não. Mesmo sofrendo, são mais felizes do que os que fogem do sofrimento. Às vezes os pegamos com “aquela” fisionomia: esboçando um sorriso secreto e misterioso...
O teimoso aceita a morte do sonho, do contrario do raivoso que passa a vida toda com aquele sonho morto no colo sem enterra-lo...

Venha. Vamos sonhar de novo e novamente. Porque, por trás de todo o sonho, esconde-se um desejo: 
O desejo de ser feliz!







Porto Alegre, 12 de outubro de 2014

Querido anjo-amigo-teimoso-sonhador:

Desculpe a demora em responder, mas é que eu precisava daquilo que só os sonhadores compulsivos possuem em abundância, falo da esperança, que em mim andava um tanto sobrecarregada em desestímulo. Talvez tenha sido mesmo pela hostilidade desencadeada pela incompreensão generalizada em relação a tudo que sinto, vejo,  sonho... você tem razão, minha amiga. A maioria das pessoas parece sentir o contrário do que  acreditamos e isso (eu sei) não deveria  incomodar, mas desbota as cores do meu mundo e aos pouquinhos, se eu não tomar certo cuidado, o cinza predomina e empobrece a visão, tanto de ideias novas, quanto dos sonhos que assim como você,  insisto em cultivar.

Sabe, acho que os sonhos não morrem, mas ao contrário do que a maioria pensa, a esperança pode fenecer dentro da alma da gente muito antes do corpo. Esta é uma das poucas coisas as quais tenho certeza na vida. E aprendi também que  somos feitos de carne, sangue e sonhos, por isso mesmo  aquelas  pessoas que esqueceram de sonhar, façam o que fizerem, digam o que disserem, não vão conseguir tirar de dentro da gente esta luz que infinitamente, teima em acreditar.

Então você me pergunta: "Será que os teimosos são menos felizes que os raivosos? Será que os esquecidos de sonhar são mais felizes que os teimosos de sonho? Será que os teimosos são mais infelizes que os que secaram o coração e o tornaram um deserto frio?"

Eu acredito mesmo que ninguém neste mundo consegue sobreviver sem enlouquecer se não cultivar pelo menos um sonho, e um já é o bastante para que a vida  seja ‘sentida’.  Com sofrimento ou na ausência dele, o importante é não se deixar contaminar pelos  raivosos e termos consciência de que a dor, seja ela qual for, deve ser vivida até a última lágrima, pois só assim estaremos prontos para um novo sonhar, desejar, seja como quiser chamar. E minha resposta, assim como a sua é não, mil vezes – não!

Eu vou com você, mesmo  tentando cegar para o que pensam os alheios a nossa verdade de sonhar, de mãos dadas, acreditando sempre que a felicidade é como um sopro em um ‘dente de leão’. Há que segurar no ar os resquícios do vento, no tempo de dentro, que é infinitamente maior que qualquer desilusão, é imensidão!


Deixo um abraço de alma, de quem ad(mira) você de longe, no peito dentro.


Dulce Miller



Vida, Morte e Ressurreição.


Existe uma contradição do modo de vida atual com as necessidades naturais de felicidade do homem. A busca materialista que coloca a lógica racional iluminista como salvadora de caminhos para o bem comum, mesmo provando-se ineficaz, continua em voga. Não é bem visto quem as questiona, no melhor dos casos ganha a alcunha de sonhador e no pior, de alienado. As mudanças só existem se antes sonhadas, se antes nos recusamos a aceitar certas realidades a ponto de queremos mudá-las. Entretanto hoje em dia, a não aceitação da realidade, é vista geralmente como patológica. 

Os buscadores de certezas precisam reformular sua necessidade porque, mesmo as hipóteses cientificas consagradas, surgiram inicialmente de suposições e inegavelmente, de sonhos! Mostrou-nos Einstein que as supostas verdades da ciência devem ser vistas apenas como pretensamente imutáveis, podendo ser substituídas por outras “verdades” a qualquer momento ou nova descoberta. Somos seres complexos e nossa vivência compreende diversas dimensões. 

Não é de se estranhar que a tentativa de mutilação da experiência humana onde o “realismo” tenta destruir os sonhos esteja levando o homem a abandonar sua maior força: a esperança! Somos seres gregários, vivemos em sociedade desde os mais remotos tempos e isso foi nossa força para a sobrevivência por séculos. Tenho a clara visão que é a esperança na amorosidade (o dar, o receber e o compartilhar) que move o homem para o bem comum. 

Quando esta desaparece, resta ao homem como a única maneira de sobreviver emocionalmente, o isolamento dentro do individualismo. O valor das relações que estabelecemos deveria ter como principio principal a própria vida, isso é uma obviedade, mas é notório e assustador como aos poucos estamos caminhando para a morte. A vida “como se” parece tomar conta da humanidade e assim, todos vivem “como se” fossem felizes. 

Como questionar se estão vivendo, buscando e obtendo as coisas que se impõem como valores para atingir a felicidade? Então para sermos considerados sãos e normais devemos nos conformar com a realidade tal como se apresenta? O desejo e o sonho estão destinados aos “desequilibrados” que não se adaptam a essa realidade? Claro que existe a patologia, claro que existe a alienação. Mas ela não está no sonho nem na esperança, está na maneira como vivemos esses sentimentos. 

Temos uma tendência a ignorar as profundidades e complexidades, é mais fácil catalogar, colocar na prateleira empoeirada e seguir em frente sem grandes conflitos. A sociedade atual colocou o sentimento de infelicidade como algo vergonhoso e que deve ser evitados a todo custo (inclusive com medicação ininterrupta). Portanto, a infelicidade, como um dos caminhos para a transformação da realidade, fica impedida de ser vivenciada e transcendida. 

Neste lugar, onde “tudo é permitido” desde que “feliz e prazeroso”, se perpetua a infelicidade de cada um no calar da noite, juntamente com a promessa de um futuro inalterado e sem esperanças. Sob a aparência de liberdade e controle racional da vida, viceja uma permissividade perversa em relação ao próximo e a nós mesmos. A fé encontra seu caminho como a salvadora da esperança. A fé permite esperar contra toda desesperança que há. 

A fé precisa do coração e precisa também da inteligência comprometida que pensa no possível que ainda está no campo do impossível, mas que é passível de existir de forma concreta através da ação. Precisamos ter como ponto de partida a verdade dentro de nós. Precisamos nos aproximar novamente de nossos corações, mesmo que desacostumados e mesmo que doa um pouco. Não há outra maneira. Precisamos marcar um encontro com a coerência da vida de uma forma mais conectada e sensível, pois só ela nós trará a harmonia que buscamos para atingirmos não só o prazer efêmero da vida, mas a felicidade de estarmos vivos.

[ Angela Regina Pilon -  Psicoterapeuta]



"O Amor é a Regeneração Permanente do Amor Nascente."


“Trago a pessoa amada em três dias!” Atire a primeira pedra quem nunca na vida, secretamente, desejou que esses cartazes não fossem apenas pura enganação. Se nossa existência é fundamentalmente confirmada pelo olhar do outro, como nos disse Sartre, sentir-se amado, aceito e acolhido é fundamental para a experiência humana. Precisamos viver dentro de relações amorosas, mesmo que muitas vezes, isso nos custe vivenciar rompimentos dolorosos. 

A ligação entre o amor e a dor é muito forte e paradoxal. Mesmo que busquemos o prazer e tentemos evitar a dor, o movimento de entrega exige uma vulnerabilidade que expõe, sem piedade, nossa fragilidade diante do outro e de nós mesmos. Somos seres desejantes, mas a realização de nosso desejo está sujeita à resposta que o outro nos dá. Vivemos o presente ansiando o futuro feliz e uma felicidade para “além do amanhã”, mesmo conscientes de que nossa existência é naturalmente um infinito “vir-a-ser”. 

A experiência me diz que o amor não é nem um inferno de aniquilamento, nem um céu de perfeição imutável. Somos seres em evolução, imperfeitos e sujeitos a escolhas das quais não podemos prever as consequências. Somos uma combinação entre realidades subjetivas e objetivas numa construção de possibilidades. 

É um autoengano achar que chegamos à descoberta definitiva sobre o amor, de alguma maneira, a vida está sempre nos levando para fora desse lugar confortável e pode nos empurrar para a beira do abismo da incompletude novamente. Por mais que tentemos, não é possível definir o amor como uma estrutura idealizada e reproduzível; o amor será sempre uma experiência em aberto, onde descobertas devem ser feitas e novas histórias escritas. 

Resta-nos, sermos resilientes na dor e vivenciar o amor como um movimento infinito em busca do AMAR. Só a partir desta compreensão poderemos transcender seus sofrimentos e receber suas lições e beleza!


Ângela Regina Pilon - Psicoterapeuta
*O título do post é uma frase de Edgard Morin

(su)jeitos da esperança(mor)


Angela Regina: 'Só estou tentando, mas sei que posso e podemos juntos...'

Meus pais acharam bonito o nome Angela Regina. Sempre me preocupou o significado: soa bem pretensioso. Mas alguém falou que nome é coisa séria, então procuro ser uma pessoa que busca (na maioria das vezes desajeitadamente) o bom, o belo e o justo. Ao me formar psicóloga, direcionei a vida para estar constantemente em contato com o sofrimento humano, sua busca de amar, amar-se e ser amado. Esse fato, com o passar dos anos, acabou levando-me a reflexões que transformaram minha visão de mundo profundamente.
Em uma de minhas reflexões entendi que meu trabalho poderia ser descrito como “esperançóloga” ou algo assim porque esperança é uma palavra que ganha significado e força em situações extremas, basta você ficar em uma situação difícil para sentir o quanto ter esperança passa a estar no topo da lista de importância na sua vida.
Mas o que é a esperança?
Acho que ela pode ser explicada como um “eu espero”, Uma percepção de que há um horizonte à frente somente visível após o estabelecimento (ou reestabelecimento) de um sentimento de confiança na vida e nas pessoas.
Portanto, para existir a esperança, precisamos experiênciar um encontro verdadeiro, onde o “Eu” busca tornar-se “um-eu-com-o-outro” através da relação de confiança. Mas todo cuidado é pouco, as pessoas geralmente confundem uma relação de troca com uma relação de espoliação, de um “eu” cindido e incompleto que busca desesperadamente sua completude no outro o que leva, invariavelmente, a que tudo termine de forma frustrante e gerando mais desesperança. A fragmentação faz acreditar que, para que o “eu” seja coeso, é preciso que o outro assimile meu pensamento numa simbiose que pouco se parece com comunhão e muito com uma guerra de poder. A fragmentação nos induz a separar o mundo entre sujeito/objeto, eu/não eu. A fragmentação leva a mais fragmentação e nunca a completude.
A alteridade só existe no trasbordamento do eu para o outro, numa diferenciação madura. “alter” é um prefixo em latim que significa “outro” e é nessa relação de diferença existencial com o outro que nos impele sair de uma situação “confortavelmente acabada” para um movimento complexo de interdependência e evolução. A alteridade vê a diferença e encontra a comunhão dentro dela, não há mais uma preocupação para que o outro seja eu. Na tentativa de encontrar a “alma gêmea” matamos o outro na busca de nós mesmos. Mas quando a relação acontece entre sujeito/sujeito, a necessidade de poder sobre o outro se transforma em cuidado e é estabelecida uma relação de complementaridade onde o outro pode estar inteiro assim como você.
A alteridade é a beleza da comunhão com a inteireza do outro. É o crescimento na diferença. Só o Amor sentido como transcendência pode restituir ao outro sua integridade. Só podemos amar o outro como “outro” quando amamos “a diferença” que é o outro. Só privilegiando a diferença com o máximo respeito podemos permitir ao outro sua integridade e liberdade.
A esperança é resultado direto da nossa experiência amorosa, portanto precisa de vulnerabilidade emocional e coragem. Precisamos acreditar que o outro pode nos oferecer algo e que podemos retribuir de alguma forma. Por isso, sentimos esperança quando um amigo nos apoia ou quando vemos um gesto de solidariedade improvável.


Geraldo  
A esperança é muito mais que uma aspiração de felicidade/superação de problemas. Pressupõe descobrir os horizontes visando entender mais a nós mesmos e o mundo que nos cerca. Algo bem mais difícil e profundo, pois corresponde ao sentido da vida, ou seja, sem ela viver não tem sentido. A conexão que faz do “ego” e o “alter ”, na perspectiva do ser amoroso, mostra que autêntica esperança não pode ser individual e nem apoiada em ilusões. Esperança é mesmo algo muito forte. Daí o provérbio, “a esperança é a última que morre”... por isso, os esperançosos, dada a conexão mente/corpo, têm melhores condições de vencer a dor, as doenças e os sofrimentos...


Só atingimos o encontro profundo conosco quando vamos além de nós mesmos...
Eis o grande paradoxo da vida...