dia logando, dia sonhando...
São Paulo, 30 de setembro de
2014
Querida moça do sonho:
Hoje acordei teimosa e resolvi te
escrever. Teimosa porque insisto em sonhar, mas você sabe: as pessoas estão
cada dia mais hostis em relação aos que
sonham. Creio que seja porque seus
sonhos morreram e elas não souberam enterra-los para usar como adubos para
novos sonhos...
Às vezes, acho que a raiva que vem delas, quando conto meus sonhos, deve ser dó... Vai ver elas se preocupam comigo... Sonharam, sofreram e não querem reviver a dor delas na minha previsível, e segundo elas, inevitável dor...
Sabe, vivemos em uma sociedade onde uma coisa natural da vida, o sofrimento, se tornou um grande pecado. Se você sofre pelos seus sonhos, você é ingênuo, ou fraco, ou fora da realidade: um tolo, que mais do que merecer sofrer, deve se envergonhar também de seu sofrimento!
- Será que os teimosos são menos
felizes que os raivosos?
- Será que os teimosos são mais
infelizes que os que secaram o coração e o tornaram um deserto frio?
- Será que os esquecidos de
sonhar são mais felizes que os teimosos de sonho?
Ah! Não. Não são não. Mesmo
sofrendo, são mais felizes do que os que fogem do sofrimento. Às vezes os pegamos
com “aquela” fisionomia: esboçando um sorriso secreto e misterioso...
O teimoso aceita a morte do
sonho, do contrario do raivoso que passa a vida toda com aquele sonho morto no
colo sem enterra-lo...
Venha. Vamos sonhar de novo e
novamente. Porque, por trás de todo o sonho, esconde-se um desejo:
O desejo de
ser feliz!
Porto Alegre, 12 de outubro de
2014
Querido anjo-amigo-teimoso-sonhador:
Desculpe a demora em responder, mas
é que eu precisava daquilo que só os sonhadores compulsivos possuem em
abundância, falo da esperança, que em mim andava um tanto sobrecarregada em
desestímulo. Talvez tenha sido mesmo pela hostilidade desencadeada pela
incompreensão generalizada em relação a tudo que sinto, vejo, sonho... você tem razão, minha amiga. A
maioria das pessoas parece sentir o contrário do que acreditamos e isso (eu sei) não deveria incomodar, mas desbota as cores do meu mundo e
aos pouquinhos, se eu não tomar certo cuidado, o cinza predomina e empobrece a
visão, tanto de ideias novas, quanto dos sonhos que assim como você, insisto em cultivar.
Sabe, acho que os sonhos não
morrem, mas ao contrário do que a maioria pensa, a esperança pode fenecer
dentro da alma da gente muito antes do corpo. Esta é uma das poucas coisas as
quais tenho certeza na vida. E aprendi também que somos feitos de carne, sangue e sonhos, por
isso mesmo aquelas pessoas que esqueceram de sonhar, façam o que
fizerem, digam o que disserem, não vão conseguir tirar de dentro da gente esta
luz que infinitamente, teima em acreditar.
Então você me pergunta: "Será que
os teimosos são menos felizes que os raivosos? Será que os esquecidos de sonhar
são mais felizes que os teimosos de sonho? Será que os teimosos são mais
infelizes que os que secaram o coração e o tornaram um deserto frio?"
Eu acredito mesmo que ninguém
neste mundo consegue sobreviver sem enlouquecer se não cultivar pelo menos um
sonho, e um já é o bastante para que a vida
seja ‘sentida’. Com sofrimento ou
na ausência dele, o importante é não se deixar contaminar pelos raivosos e termos consciência de que a dor,
seja ela qual for, deve ser vivida até a última lágrima, pois só assim
estaremos prontos para um novo sonhar, desejar, seja como quiser chamar. E
minha resposta, assim como a sua é não, mil vezes – não!
Eu vou com você, mesmo tentando cegar para o que pensam os alheios a
nossa verdade de sonhar, de mãos dadas, acreditando sempre que a felicidade é como
um sopro em um ‘dente de leão’. Há que segurar no ar os resquícios do vento, no
tempo de dentro, que é infinitamente maior que qualquer desilusão, é imensidão!
Deixo um abraço de alma, de quem
ad(mira) você de longe, no peito dentro.
Dulce Miller



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[Dulce Miller]
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