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Auto suficiência x Independência: dá pra melhorar?



Existe uma diferença sutil mas crucial entre independência x auto suficiência.

Pessoas independentes vivem bem sozinhas. Porque são bem resolvidas, porque se encontraram consigo mesmas e não dependem de ninguém para ser feliz. E quando se relacionam, somam! Pessoas independentes confiam no próprio taco e escolhem situações a viver e pessoas para estar ao seu lado simplesmente porque são agregadoras, sem ser pejorativo!

Pessoas auto suficientes, por outro lado, se bastam. São pessoas que tem um nível elevado de consciência e locus de controle interno (auto responsabilidade), aprendem com pessoas e situações, são 100% presentes no presente! Porém embora pensem em qualidade de vida, pensem no futuro e em como seus comportamentos e escolhas vão influenciar diretamente o seu futuro, não chegam a se mobilizar para uma entrega no momento atual.

Ambos "tipos" tem muito em comum...mas o segundo se difere especialmente por não criar vínculos.
Certamente baseados em experiências passadas, as quais causaram muita dor, sem perceber deixam esses “traumas inconscientes” bloquearem a entrega para novos relacionamentos. E acabam deixando de experimentar por medo de perder o controle. Por isso ficam sozinhas, mesmo que acompanhadas.

Se você se identifica com o primeiro exemplo, continue vigilante, mas em melhoria contínua. Se se identifica com o segundo exemplo, te faço um convite: Se permita experimentar a visão de uma vida com muito mais sentido se entregando com confiança para um ou alguns relacionamentos, familiar, amizade, amoroso, ou até profissional! Não estou falando de uma entrega emotiva, aliás cuidado com esse tipo de entrega pois é momentânea e traiçoeira, mas sim de uma entrega consciente e plena, madura e sábia.

Livre dos traumas, o passado se torna fonte de recursos para construção de um futuro pleno e extraordinário. Aqui eu convido a uma reflexão...o que te impede de ser feliz? O que você não parou para pensar sobre você, sobre sua história, que, mesmo em processo de auto desenvolvimento pleno ainda te bloqueia de seguir naquilo que mais quer?
Independente do que se identificar, experimente sair dos rótulos, baixe sua guarda, deixe de lado seu orgulho e se permita experimentar....

Isso é viver! E se quebrar a cara? Aprenda com o erro e comece tudo outra vez!!!! Sempre e cada vez melhor!

Você tem certeza que vive na realidade?

© Sean & Seng


Por diversas vezes na minha vida, quando planejava fazer algo diferente ouvia das pessoas: Seja realista! Ah! Faço a ressalva de que esse “algo diferente”, era sempre ligado mais a ações generosas que egoístas... 

Não vou aqui começar uma discussão teórica (e chata) sobre o que é realidade, mas podem ter certeza que a realidade existe e o único problema que temos é que, geralmente, estamos errados na nossa percepção sobre ela... 

Acredito que o principal motivo da nossa distorção perceptiva seja a valorização de um individualismo egoísta, que nos incita a forjar um poder e um prazer ilusórios sobre nossas vidas e nos faz acreditar que podemos viver somente para nós e por nós. 

A partir de então, se criam sociedades cruéis e relacionamentos humanos que parecem ignorar a sua finalidade de completude e transformação como se isso, fosse a única realidade possível. Para viver de forma realista, é inadiável sairmos dessa irrealidade egocêntrica, para a verdade de que partilhamos a vida com todos criando a realidade partir de cada “respir/AÇÃO”. 

Quer percebamos ou não, seremos sempre seres interdependentes: construindo ou destruindo, separando ou agregando, alterando nossas vidas e a vida das outras pessoas, tanto para o bem como para o mal. Estamos vivendo numa irrealidade esquizofrênica causada principalmente pela separação entre o que queremos realmente da vida e como vivemos. 

Uma das maneiras de voltarmos à realidade, é prestar mais atenção nos nossos desejos mais íntimos: será que eles se conectam como o que nos foi ensinado a desejar? O sofrimento, muitas vezes, é o aviso de que saímos da direção certa, entretanto estamos prosseguindo cegos, surdos e mudos pela dor; confundindo um papel de parede rabiscado de inseguranças tolas e pintado com as cores da ilusão com a verdadeira paisagem da vida: a solidariedade; onde a generosidade, longe de ser irrealista, nada mais é que o reflexo da percepção realista de nossa vida de comunhão. 







Um poema (e uma música) a propósito...



Não sou mais do que uma brisa,
Mas se algum dia tiveres dado por mim,
Já terei valido a pena.
E se tiveres de mim a ideia de uma brisa serena
Então a minha vida terá sido plena.


Vim ao mundo montando um cavalo de guerra
Mas não trouxe a guerra comigo.
Trouxe apenas a ideia de que cavalos de guerra
Também sabem viver em paz
E soldados montados em cavalos de guerra
Podem ser excelentes semeadores.


Vim semear brisas. Vim, munido de penas,
As minhas palavras são açucenas
São regatos, searas e tudo quanto vês
Com a alma.
No dia em que partir
Deixar-te-ei o meu cavalo
Para que ele te ensine
Tudo quanto me ensinou.
Que tal como os homens, aprendem apenas
Que o vento nas crinas é o mais feliz.
Essa brisa serena que ri nas searas, que beija muralhas e lambris
Como beija aquela que se ama e aquela que no-lo diz
Numa brisa. Essa que agora passou. Essa que agora brincou
Com os teus cabelos, com a tua saia…
Se a sentiste era eu que te beijava
Montado no meu cavalo de paz.



| Emílio Miranda em 22/4/2015 |






Erótica é a alma!


"Não foi à toa que Adélia Prado disse que "erótica é a alma". Enganam-se aqueles que pensam que erótico é o corpo. O corpo só é erótico pelos mundos que andam nele. A erótica não caminha segundo as direções da carne. Ela vive nos interstícios das palavras. Não existe amor que resista a um corpo vazio de fantasias. Um corpo vazio de fantasias é um instrumento mudo, do qual não sai melodia alguma. Por isso, Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar: "continuarei a ter prazer em conversar com esta pessoa daqui a 30 anos?"

(Rubem Alves)


Imagem daqui

Sonhos Aprisionados


Ultimamente, tenho pensado muito nos cordões de isolamento que nos impedem de arriscar, de tentar alcançar o que mais aspiramos. O que nos aprisiona nem sempre é um algoz desconhecido ou estranho. Somos prisioneiros de nós mesmos quando encarceramos vontades, na mais profunda masmorra, dentro da alma. 

Deixamos de realizar desejos e planos em nome de renúncias equivocadas. Por teimosia ou tolice insistimos em permitir que a grade da rotina nos limite a uma clausura onde os desejos se acotovelam num cerimonial frustrante. 

E esse hábito cria raízes no mais íntimo de nós. Raízes que acabam por comprimir sonhos e estreitar opções. 

Os mais jovens são os mais assolados por tais contingências, influenciados que são, desde a mais tenra idade, a assumir compromissos no aprendizado de viver. Ensinados a obedecer a regras e a cumprir com obrigações, deixam pouco a pouco que seus pássaros-sonhos se constranjam aos limites do que lhes circunda. 

Sinal de que amadurecemos é a descoberta de que “mais vale um gosto que dez vinténs”. Daí, a libertação é questão de mais dia, menos dia. O presente começa a ser vivido e sorvido saborosamente momento a momento. E o futuro passa a ser o aqui e agora. 

Abre-se a gaiola, soltam-se os grilhões, arrancam-se as amarras e dão-se asas ao imaginário que voa para onde bem entende na realidade com que se depara e que se lhe apresenta ao alcance. 

Em detrimento de se fazer feliz não há mais a circunscrição de espaço ou de tempo. 

Sou hoje uma malabarista exímia em contorcionismos, caminhando sobre a corda bamba do momento que vivo, articulando músculos, nervos e emoções para manter o equilíbrio ao que me é dado alcançar na plenitude do que almejo. Sem mais desculpas ou rodeios vou enfrentando os contratempos com cara e coragem e me transformo na arquiteta do meu próprio destino, libertando meus sonhos aprisionados, restringidos a paredes invisíveis e, mesmo assim, muito sólidas. Que se desatem esses nós. 

As grades que protegem minha casa dos perigos são inevitáveis. Mas as grades que circundam minhas vontades estão caindo como as muralhas de Jericó. O soar das trombetas da sabedoria libertam meus sonhos. 

Busco o que me faz bem e escapo do desagradável porque aprendi a voar sob as coordenadas traçadas pela luz do horizonte. 

Se algo me impede de ir ao encontro do que quero, dou de ombros, inclino a cabeça por sobre o ombro e digo a mim mesma que é simples questão de mais dia, menos dia. Basta isso para voltar o sorriso a face e o brilho aos olhos. 

Sonho libertado tem mais força do que se supõe.


Dezoito meses para amar

“O Amor e Psyché”, óleo sobre tela de William Bouguereau, 1899

“Trago pessoa amada em dezoito meses” — este anúncio de profeta colado no poste da esquina, pode, em breve, estar nos consultórios médicos: pesquisas científicas acabam de descobrir que os homens, em especial, nascem com uma combinação genética que os torna capazes de se apaixonar à primeira vista por uma indistinta mulher. Mas esse sentimento tem prazo de validade: o cortejador tem cerca de 18 meses, ou um ano e meio, para seduzir a respectiva. Caso contrário, os laços entre ambos não se solidificarão.

Em tempos tão escassos de amantes trocando olhares, especialmente quando se conhecem no mundo virtual, é bom saber que o amor romântico está em alta, mesmo que a referida pesquisa ainda esteja em curso na Europa.

O problema, se é que para muitos isso é um problema, é que os estudos apontam apenas para a paixão, e não para o amor. E aí o buraco é mais embaixo.

Aliás, nem é de hoje. O escritor francês Stendhal, no longínquo século 19, já citava em seu livro De l’amour uma palavrinha mágica: “cristalização”. Somente as pessoas que estiverem dispostas a cristalizar um sentimento, mesmo depois que o coração pare de bater mais rápido, o frisson termine e o frio na espinha acabe, podem se dar, segundo o escritor, a chance de amar. Ora, Stendhal defende que é exatamente no ponto em que grande parte dos casais acha que já está tudo terminado, e quer partir para outro relacionamento, que se perde a grande oportunidade do amor, de se cristalizar um sentimento muito mais forte que a efêmera paixão, genuíno e duradouro.

No romance Tristão e Isolda existem duas mulheres, a Isolda do Castelo e a Isolda das Mãos Brancas. Enquanto esta última é, alegoricamente, aquela mulher perfeita e maravilhosa, que temos de nos contentar em levar em silêncio dentro do peito até o final de nossos dias, a outra, Isolda do Castelo, é a mulher real, com defeitos e virtudes, que passa de tempos em tempos por nossas vidas mundanas e com quem podemos manter uma relação feliz e não perecível.

Mais para a contemporaneidade, também encontramos na literatura do “imortal” Autran Dourado, em Confissões de Narciso, a história de um casanova que conquista uma mulher atrás da outra e só no final do livro descobre — ou redescobre, se o leitor assim preferir — o amor genuíno. O livro foi publicado em meados do século 20, mas, mesmo assim, trata do tempo do amor da Renascença, em que o coração é associado às artimanhas de Cupido e não a um órgão anatômico do corpo humano.

A conclusão que podemos tirar, sem a pretensão de esgotar o assunto, é que séculos depois de Stendhal, e mesmo com as descobertas recentes da Medicina, ainda não sabemos, ou melhor, poucos de nós sabem valorizar o equilíbrio de uma relação mais estável como o amor; e reconhecer que a estabilidade de tal sentimento traz um contentamento maior e mais definitivo do que dar cabeçadas na parede atrás da próxima ilusão amorosa, a danada da paixão, que acontece à primeira vista, literalmente. Ou seja, no quinto de segundo de uma piscadela. Pena que este sentimento vá embora quase tão rápido quanto chega.


Crônica de Eduardo Minc. 
Saiba mais sobre o autor clicando aqui.

E vem aí, ainda em julho, o livro de crônicas de Eduardo Minc pela  KBR Editora Digital.






Amor é bicho instruído*



Quantas vezes ouvimos e falamos: Meu Deus como sofri! Nunca mais! Aprendi umas lições agora! Mas...basta um “não sei o que”, um “num sei quem”, de uma “não sei de que maneira”... e lá vamos nós de novo: Voltamos a acreditar em tudo! Voltamos a acreditar no Amor! 

Isso não acontece por acaso, ou porque somos tolos, ou porque queremos; acontece porque amar é a condição natural da vida! A terra e o ar amam as flores; tudo se relaciona de forma amorosa neste planeta: as árvores crescem e algumas chegam quase aos céus como as sequoias, porque suas raízes foram acolhidas e alimentadas pelo amor da terra. 

Não importa o quanto seja arriscado manter a nossa vulnerabilidade ao amor, só podemos ser felizes nela. Sim, existem pessoas que se fecharam, se isolaram e se tornaram amargas. Mas não queremos isso, não é verdade? Sabemos que ao agirmos assim temos a sensação de quase morte, aprisionamento e sabemos também, dentro de nossa alma, que vida e a liberdade são os princípios básicos da felicidade. 

Acreditamos no amor porque existe um lugar dentro dele que (re)conhecemos intuitivamente, mesmo que não o tenhamos vivido... ainda... Sim, o amor exige coragem, não é coisa para covardes. A etimologia da palavra coragem é: agir com o coração então, é melhor arriscar de novo, acreditar de novo e se colocar vivo novamente. 

Finalizo com Drummond e o verso final de seu poema: "O amor bate na aorta" 


"Daqui estou vendo o amor irritado, desapontado... 
Mas também vejo outras coisas: 
Vejo beijos que se beijam, 
Ouço mãos que se conversam 
e que viajam sem mapa. 
Vejo muitas outras coisas, 
que não ouso compreender..."


Texto de Angela Regina - Psicoterapeuta


 *Título do post de Carlos Drummond de Andrade

Tem cura, doutor?



E o médico perguntou: o que sentes? 
Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias.


| Denison Mendes, do livro 'Bonsais atômicos', Editora Multifoco |

Ilustração: Manoela B. Costa



Vida, Morte e Ressurreição.


Existe uma contradição do modo de vida atual com as necessidades naturais de felicidade do homem. A busca materialista que coloca a lógica racional iluminista como salvadora de caminhos para o bem comum, mesmo provando-se ineficaz, continua em voga. Não é bem visto quem as questiona, no melhor dos casos ganha a alcunha de sonhador e no pior, de alienado. As mudanças só existem se antes sonhadas, se antes nos recusamos a aceitar certas realidades a ponto de queremos mudá-las. Entretanto hoje em dia, a não aceitação da realidade, é vista geralmente como patológica. 

Os buscadores de certezas precisam reformular sua necessidade porque, mesmo as hipóteses cientificas consagradas, surgiram inicialmente de suposições e inegavelmente, de sonhos! Mostrou-nos Einstein que as supostas verdades da ciência devem ser vistas apenas como pretensamente imutáveis, podendo ser substituídas por outras “verdades” a qualquer momento ou nova descoberta. Somos seres complexos e nossa vivência compreende diversas dimensões. 

Não é de se estranhar que a tentativa de mutilação da experiência humana onde o “realismo” tenta destruir os sonhos esteja levando o homem a abandonar sua maior força: a esperança! Somos seres gregários, vivemos em sociedade desde os mais remotos tempos e isso foi nossa força para a sobrevivência por séculos. Tenho a clara visão que é a esperança na amorosidade (o dar, o receber e o compartilhar) que move o homem para o bem comum. 

Quando esta desaparece, resta ao homem como a única maneira de sobreviver emocionalmente, o isolamento dentro do individualismo. O valor das relações que estabelecemos deveria ter como principio principal a própria vida, isso é uma obviedade, mas é notório e assustador como aos poucos estamos caminhando para a morte. A vida “como se” parece tomar conta da humanidade e assim, todos vivem “como se” fossem felizes. 

Como questionar se estão vivendo, buscando e obtendo as coisas que se impõem como valores para atingir a felicidade? Então para sermos considerados sãos e normais devemos nos conformar com a realidade tal como se apresenta? O desejo e o sonho estão destinados aos “desequilibrados” que não se adaptam a essa realidade? Claro que existe a patologia, claro que existe a alienação. Mas ela não está no sonho nem na esperança, está na maneira como vivemos esses sentimentos. 

Temos uma tendência a ignorar as profundidades e complexidades, é mais fácil catalogar, colocar na prateleira empoeirada e seguir em frente sem grandes conflitos. A sociedade atual colocou o sentimento de infelicidade como algo vergonhoso e que deve ser evitados a todo custo (inclusive com medicação ininterrupta). Portanto, a infelicidade, como um dos caminhos para a transformação da realidade, fica impedida de ser vivenciada e transcendida. 

Neste lugar, onde “tudo é permitido” desde que “feliz e prazeroso”, se perpetua a infelicidade de cada um no calar da noite, juntamente com a promessa de um futuro inalterado e sem esperanças. Sob a aparência de liberdade e controle racional da vida, viceja uma permissividade perversa em relação ao próximo e a nós mesmos. A fé encontra seu caminho como a salvadora da esperança. A fé permite esperar contra toda desesperança que há. 

A fé precisa do coração e precisa também da inteligência comprometida que pensa no possível que ainda está no campo do impossível, mas que é passível de existir de forma concreta através da ação. Precisamos ter como ponto de partida a verdade dentro de nós. Precisamos nos aproximar novamente de nossos corações, mesmo que desacostumados e mesmo que doa um pouco. Não há outra maneira. Precisamos marcar um encontro com a coerência da vida de uma forma mais conectada e sensível, pois só ela nós trará a harmonia que buscamos para atingirmos não só o prazer efêmero da vida, mas a felicidade de estarmos vivos.

[ Angela Regina Pilon -  Psicoterapeuta]



Feita de pas-sados...


Engana-se quem pensa que somos feitos e construídos no hoje, no presente, no aqui/agora. 
Todos temos uma história para contar, a história das nossas vidas. Uns mais breves que outros, mas sim, somos feitos de tijolos de ontem’s .
Dia após dia construímos isso que chamamos de vida. 
“Vida: do latim, vita; o período que decorre entre o nascimento e a morte” 
Durante esse período aprendemos, crescemos, estudamos, conhecemos pessoas, nos decepcionamos com umas, nos surpreendemos com outras. Choramos, rimos, perdemos e ganhamos coisas, pessoas, dias.
Dias... 
O passar dos dias nos constrói , nos descontrói, nos molda...
O passar dos dias nos faz sermos o que fomos ontem, no que somos hoje, porém melhores. (nem todos, alguns não se permitem melhorar)
Encontre alguém que o ame, mas que acima de tudo ame seu passado. Porque é dele que você é feito, e não de hoje! 
Encontre alguém que consiga aceitar todas as pedras do seu caminho, que saiba conviver com o cheiro das rosas e com o espetar dos espinhos. 
Encontre alguém que ao se deparar com os seus espinhos saiba, e queira se encaixar neles e porque não ser espetado por eles?! 
Não há roseira que não os possua. Não há porco-espinho que não os tenha, e os tendo fique sozinho. Sempre existe aquele que se permite ser junto com o outro. (Porco-espinho/passado-espinho. )
Sempre existe aquele que pague o preço das rosas convivendo também com os espinhos. 
Encontre ESTE alguém! 
Meu passado é meu e faz parte da minha história. 
E eu vou olhá-lo sempre com a dignidade que ele merece!
Tem muito de mim lá, e muito dele aqui, todos esses dias me construíram e me moldaram da forma que sou hoje.
Sou feita de passados...
...e quem não é? 
O segundo de agora, daqui a pouco vai ser passado, e assim sucessivamente construímos nossa história.
E embora tudo se faz novo no hoje, no agora, nós somos mesmo feitos do segundo que já não é, que foi... de ontem's. 

Fui. 

Sou. 

Fui novamente. 

Sou.

Pas-sou!

Texto perfeito da Jussara Martins, no blog dela, Insone

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olhapara fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa. E a fazer filas para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e a ver comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. A luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. A contaminação da água do mar. A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

[ Marina Colasanti ]

Aviso da Lua que menstrua



Moço, cuidado com ela! 
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua... 
Imagine uma cachoeira às avessas: 
cada ato que faz, o corpo confessa. 
Cuidado, moço 
às vezes parece erva, parece hera 
cuidado com essa gente que gera 
essa gente que se metamorfoseia 
metade legível, metade sereia. 
Barriga cresce, explode humanidades 
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar 
mas é outro lugar, aí é que está: 
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.. 
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente 
que vai cair no mesmo planeta panela. 
Cuidado com cada letra que manda pra ela! 
Tá acostumada a viver por dentro, 
transforma fato em elemento 
a tudo refoga, ferve, frita 
ainda sangra tudo no próximo mês. 
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou 
é que chegou a sua vez! 
Porque sou muito sua amiga 
é que tô falando na "vera" 
conheço cada uma, além de ser uma delas. 
Você que saiu da fresta dela 
delicada força quando voltar a ela. 
Não vá sem ser convidado 
ou sem os devidos cortejos.. 
Às vezes pela ponte de um beijo 
já se alcança a "cidade secreta" 
a Atlântida perdida. 
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela. 
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas 
cai na condição de ser displicente 
diante da própria serpente 
Ela é uma cobra de avental 
Não despreze a meditação doméstica 
É da poeira do cotidiano 
que a mulher extrai filosofando 
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso 
julgando a arte do almoço: Eca!... 
Você que não sabe onde está sua cueca? 
Ah, meu cão desejado 
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir 
então esquece de morder devagar 
esquece de saber curtir, dividir. 
E aí quando quer agredir 
chama de vaca e galinha. 
São duas dignas vizinhas do mundo daqui! 
O que você tem pra falar de vaca? 
O que você tem eu vou dizer e não se queixe: 
VACA é sua mãe. De leite. 
Vaca e galinha... 
ora, não ofende. Enaltece, elogia: 
comparando rainha com rainha 
óvulo, ovo e leite 
pensando que está agredindo 
que tá falando palavrão imundo. 
Tá, não, homem. 
Tá citando o princípio do mundo!

I don’t care...



Atropelei o mundo e eu mesma. Desisti. E isso é a coisa mais triste que tenho a dizer. A coisa mais triste que já me aconteceu. Eu simplesmente desisti. Não brigo mais com a vida, não quero entender nada. Vou nos lugares, vejo a opinião de todo mundo, coisas que acho deprê, outras que quero somar, mas as deixo lá. Deixo tudo lá. Não mexo em nada. Não quero. Odeio as frases em inglês mas o tempo todo penso “I don’t care”. Me nego a brigar. Pra quê? Passei uma vida sendo a irritadinha, a que queria tudo do seu jeito. Amor só é amor se for assim. Sotaque tem que ser assim. Comer tem que ser assim. Dirigir, trabalhar, dormir, respirar. 

E eu seguia brigando. Querendo o mundo do meu jeito. Na minha hora. Querendo consertar a fome do mundo e o restaurante brega. Agora, não quero mais nada. De verdade. Não vejo o que é feio e o que é bonito. Não ligo se a faca tirar uma lasca do meu dedo na hora de cortar a maça. Não ligo pra dor. Pro sangue. Pro desfecho da novela. Se o trânsito parou, não buzino. Se o brinco foi pelo ralo, foda-se. Deixa assim. 

A vida é assim. Não brigo mais. Não quero arrumar, tentar, me vingar, não quero segunda chance, não quero ganhar, não quero vencer, não quero a última palavra, a explicação, a mudança, a luta, o jeito. Eu quero não sentir. Quero ver a vida em volta, sem sentir nada. Quero ter uma emoção paralítica. Só rir de leve e superficialmente. Do que tiver muita graça. E talvez escorrer uma lágrima para o que for insuportável. Nada pessoal. Algo tipo fantoche, alguém que enfie a mão por dentro de mim, vez ou outra, e me cause um movimento qualquer. Quero não sentir mais porra nenhuma. Só não sou uma suicida em potencial porque ser fria me causa alguma curiosidade. 

O mundo me viu descabelar, agora vai me ver dormir. Eu quis tanto ser feliz. Tanto. Chegava a ser arrogante. Tanta coisa dentro do peito. Tanta vida. Tanta coisa que só afugenta a tudo e a todos. Ninguém dá conta do saco sem fundo de quem devora o mundo e ainda assim não basta. Ninguém dá conta e quer saber? Nem eu. Chega. Não quero mais ser feliz. Nem triste. Nem nada. Eu quis muito mandar na vida. Agora, nem chego a ser mandada por ela. Eu simplesmente me recuso a repassar a história, seja ela qual for, pela milésima vez. Deixa a vida ser como é. Desde que eu continue dormindo. Ser invisível, meu grande pavor, ganhou finalmente uma grande desimportância. Quase um alivio. I don’t care. 

[ Tati Bernardi ]
Imagem Pinterest

A alma entende e a boca cala.



Pior do que se sentir perdida é perder-se em si mesmo. No emaranhado do que você acredita misturado ao que você é ou era. O que você acredita, apostando corrida com o que você mais detesta. O que você tem, jogando palitinhos com o que você quer. Seu amor e suas dores na linha de chegada e o coração de juiz em dia de clássico. Eu não sei se você entende o raciocínio de quem não tem raciocinado ultimamente ou se entende o porquê de certas coisas que não se explicam. Quando a cabeça não pensa o corpo padece. Mas quando a cabeça pensa demais será que nossa alma enriquece? 

Você cheio de indagações e de táticas que não fazem o menor sentido. (pelo menos para você ou pelo menos naquele momento). Suas certezas mudam, suas prioridades deixam de ser prioridades já que você nem sabe mais o que deseja. Até sabe, mas está tão longe e você tão cansado que o mais fácil é deixar que as prioridades te encontrem e você pode fugir do que não interessa. 

Seus princípios enfraquecidos te cobram uma atitude e você cobra a coragem. Seus olhos pesam e seu coração já bate fraco. De tanto que bateu a vida inteira. De tanto chorar amor e fracassos. De tanto chorar pelo leite derramado você decide que se entender é complicado demais. O quente queima e o frio é gelado demais, vai o morno mesmo que não causa sensação alguma e no momento você não tem sequer condições de sentir algo. Sentir dá trabalho e trabalho acarreta uma série de responsabilidades. Responsabilidade é chato demais e não aquece seus pés nos dias frios. 

Você enfim, opta por decidir somente pelo necessário. Pelo que realmente vai fazer alguma diferença em sua vida e desiste de tentar equilibrar-se, isso é para artista circense e você nem gosta tanto de circo. Melhor deixar assim. Uma porta de saída e uma de entrada. O que vale fica e o que não vale que valesse. Nada de culpa ou de noites mal dormidas, nada de coração na boca em de frio na barriga. 

Certas coisas não se explicam. Não existem palavras que as descrevam ou soluções que as resolva . Sentimentos, gestos, sonhos e sorrisos. A alma entende e a boca cala.



Um dedinho de fé para os momentos que mais precisamos...



Estava precisando fazer uma faxina em mim...

Jogar alguns pensamentos indesejados fora, lavar alguns tesouros que andavam meio que enferrujados...
Tirei do fundo das gavetas lembranças que não uso e não quero mais.

Joguei fora alguns sonhos, algumas ilusões...
Papéis de presente que nunca usei, sorrisos que nunca darei...

Joguei fora a raiva e o rancor das flores murchas que estavam dentro de um livro que não li...
Olhei para meus sorrisos futuros e minhas alegrias pretendidas
E as coloquei num cantinho, bem arrumadinhas.
Fiquei sem paciência!

Tirei tudo de dentro do armário e fui jogando no chão:
Paixões escondidas, desejos reprimidos, palavras horríveis que nunca queria ter dito, mágoas de um amigo, lembranças de um dia triste... mas, lá também havia outras coisas... e belas!

Um passarinho cantando na minha janela...
Aquela lua cor prata, o pôr-do-sol...
Fui me encantando e me distraindo, olhando para cada uma daquelas lembranças...
Sentei no chão para poder fazer minhas escolhas.
Joguei direto no saco de lixo os restos de um amor que me magoou.

Peguei as palavras de raiva e de dor que estavam na prateleira de cima, pois quase não as uso, e também joguei fora no mesmo instante!

Outras coisas que ainda me magoam, coloquei num canto para depois ver o que farei naquele cantinho, naquela gaveta que a gente guarda tudo o que é mais importante:
O amor, a alegria, os sorrisos, um dedinho de fé para os momentos que mais precisamos...

Como foi bom relembrar tudo aquilo!

Recolhi com carinho o amor encontrado, dobrei direitinho os desejos, coloquei perfume na esperança, passei um paninho na prateleira das minhas metas, deixei-as a mostra, para não perdê-las de vista.

Coloquei nas prateleiras de baixo algumas lembranças de infância, na gaveta de cima as da minha juventude e, pendurado bem à minha frente, coloquei a minha capacidade de amar e de recomeçar!

[ Carlos Favaro Fanta ]


Fizeram a gente acreditar...

Yoko & John

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada. 

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável. 

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada dois em um: duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. 

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. 

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. 

Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.

[ John Lennon ]



Ninguém no mundo merece perder um amor da forma estúpida como Yoko perdeu seu John... Dói em mim imaginar uma situação assim. E a saudade nestes casos, é algo que nunca terá fim. Muito triste.


Quando a música é poesia, quando a poesia é música.




Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

[Fernando Pessoa]


...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade. 

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)

O que você procura?



“Por favor, por favor!” Disse um peixe do mar a um outro peixe:

“Você que deve ter mais experiência, talvez possa ajudar-me... Então me diga: Onde posso encontrar a coisa imensa que chamam de Oceano? Em toda a parte eu o venho buscando sem sucesso.”

“Mas é precisamente no Oceano que você está nadando”, disse o outro.

“Oh... isto? Mas é pura e simplesmente água!” Disse o peixe mais jovem, “eu procuro é o grande Oceano!” E lá se foi nadando, muito desapontado, a buscar noutra parte.

[ Anthony Mello ]



Da Felicidade:
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

[ Mario Quintana ]

Não é amor não.



Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso. 

Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. 

E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. 

E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado. 

Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo. 

Não é amor não. 

É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre. E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. 

E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor. 

E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo “bonito carro, boa balada, boa ieia, bonita cor, bonito sapato”. 

E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro. Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. 

Eu vou deixar. 
Vai que um dia você acredita.

[ Tati Bernardi ]
imagem daqui

Recomeçar

Imagem: Kathmandu, Nepal © Maria Gorbatova

Não importa onde você parou,
em que momento da vida você cansou,
o que importa é que sempre é possível
e necessário "Recomeçar".

Recomeçar é dar uma nova
chance a si mesmo.
É renovar as esperanças na vida
e o mais importante:
acreditar em você de novo.

Sofreu muito nesse período?
Foi aprendizado.

Chorou muito?
Foi limpeza da alma.

Ficou com raiva das pessoas?
Foi para perdoá-las um dia.

Sentiu-se só por diversas vezes?
É por que fechaste a porta até para os outros.

Acreditou que tudo estava perdido?
Era o início da tua melhora.

Pois é!
Agora é hora de iniciar,
de pensar na luz,
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Que tal um novo emprego?
Uma nova profissão?
Um corte de cabelo arrojado, diferente?
Um novo curso,
ou aquele velho desejo de aprender a pintar,
desenhar,
dominar o computador,
ou qualquer outra coisa?

Olha quanto desafio.
Quanta coisa nova nesse mundão
de meu Deus te esperando.

Tá se sentindo sozinho?
Besteira!
Tem tanta gente que você afastou
com o seu "período de isolamento",
tem tanta gente esperando apenas um
sorriso teu para "chegar" perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza nem
nós mesmos nos suportamos.
Ficamos horríveis.
O mau humor vai comendo nosso fígado,
até a boca ficar amarga.

Recomeçar!
Hoje é um bom dia para começar
novos desafios.

Onde você quer chegar?
Ir alto.
Sonhe alto,
queira o melhor do melhor,
queira coisas boas para a vida.
pensamentos assim trazem para nós
aquilo que desejamos.

Se pensarmos pequeno,
coisas pequenas teremos.

Já se desejarmos fortemente o melhor
e principalmente lutarmos pelo melhor,
o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da Faxina Mental.

Joga fora tudo que te prende ao passado,
ao mundinho de coisas tristes,
fotos,
peças de roupa,
papel de bala,
ingressos de cinema,
bilhetes de viagens,
e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados.
Jogue tudo fora.
Mas, principalmente,
esvazie seu coração.
Fique pronto para a vida,
para um novo amor.

Lembre-se somos apaixonáveis,
somos sempre capazes de amar
muitas e muitas vezes.
Afinal de contas,
nós somos o "Amor".


__ Paulo Roberto Gaefke __